Falando de Dinheiro: Cabe?

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Falando de Dinheiro: Cabe?

Uma das manias que adquiri nos últimos anos foi a de cozinhar no dia a dia ouvindo alguma coisa. Um comentário, um podcast, algum programa, música… Nada muito sério, mas algo que possa me distrair nesse momento. E quem me faz muita companhia nessas horas são Gregório Duvivier e João Vicente de Castro no que podemos chamar de papo mais importante dos menos importantes, o “Não Importa”.

O programa pega pelo formato. Dois amigos conversando sobre aleatoriedade. Sim, tem um roteiro, tem uma preparação, tem uma linha a ser seguida em cada programa. Mas é como se não tivesse. E termina que é como se eles estivessem ali na cozinha nessa resenha sem nenhuma pretensão.

Em um dos programas, eles entraram numa onda de entender alguns provérbios e ditados. A viagem se desenhou na tentativa de explicar de onde surgiram as frases. “Prego que se destaca toda martelada”, “pano pra manga”, “tirar meu cavalo da chuva”… e por aí foi.

Não sei por qual motivo, ontem fiquei matutando sozinho alguns ditados e aí lembrei do programa. Fui menos lúdico, perdi a chance de criar um conceito meu, e acabei pesquisando de onde surgiu “não adianta chorar o leite derramado”.

Pesquisei e encontrei duas explicações. Uma que o registro escrito mais antigo desse provérbio em inglês (“don’t cry over spilt milk”) é de 1659, no livro de provérbios do escritor James Howell. A outra que o fabulista francês Jean de La Fontaine compilou os contos populares de sua época. Teria sido em 1678 que ele popularizou a fábula La Laitière et le pot au lait (A leiteira e o jarro de leite).

Na fábula, uma jovem leiteira chamada Perrette vai para a cidade com um pote de leite equilibrado na cabeça. Pelo caminho, começa a sonhar com o que faria com o dinheiro da venda: compraria ovos, depois galinhas, depois um porco e, por fim, uma vaca e seu bezerro. Entre imaginações e delírios, ela se empolga tanto com a cena do bezerro pulando que salta junto. O pote cai. E, com ele, adeus vaca, porco, galinhas… e o leite todo derramado no chão.

E, tchã, daí vem o “não adianta chorar o leite derramado”.

É uma expressão que normalmente usamos quando queremos dizer que o que foi feito, foi feito. Olha pra frente, esquece o que passou e vamos resolver o que precisa ser resolvido. Agora bateu o estalo do motivo de ter pensado na frase. Foi que a usei na semana passada durante uma reunião com um casal. Em nossa conversa, a cliente comentou que as coisas ficaram muito melhores para eles quando começaram a ter noção do que poderiam gastar por semana.

“Sabe aquela baliza que você nos deu? Ajudou demais. A gente sabia como fazer. Mas por alguns problemas nos perdemos. E quando deixamos de ter aquela direção, a coisa se perdeu também”.

Conversei um pouco mais, entendi o que aconteceu e aí usei o ditado pra me ajudar: “não adianta chorar o leite derramado”. O que se perdeu, se perdeu, o que podemos fazer agora é olhar para frente, não lamentar o que se passou que saiu do controle.

E é engraçado porque essa ideia de controle é bem distorcida no cuidado com o dinheiro. Não é um controle de restrição, de limite total imposto, de não poder fazer nada. Esse seria um controle do “não posso fazer”. Pode até parecer contraintuitivo, mas é um controle para dar liberdade, maior domínio, mais segurança.

A baliza que ela se referiu foi a de entender o dinheiro por áreas, por objetivos. A maioria das pessoas trata o dinheiro como um bloco só, aquele monte na conta. Por isso, muitas vezes, vive a sensação de que “some”. Quando você separa por área, você para de perguntar “quanto eu tenho?” e passa a perguntar “quanto eu tenho pra isso?”. E essa segunda pergunta é a que dá paz.

A pessoa que sabe que tem R$ 400 pra lazer no mês não gasta menos necessariamente; ela gasta sem culpa, porque sabe que cabe. Organizar por área não é te prender, é te dar permissão de gastar em paz.

Aqui a gente muda um pouco aquela pergunta do fim de mês: “sobrou ou não sobrou?”. Quando se faz essa pergunta, é uma conta só, respondida tarde demais, quando já não dá pra mudar nada. O leite já foi derramado.

O que a gente busca é antecipar. Se cada área tem uma disponibilidade definida, ganhamos flexibilidade. O mercado, o lazer, o transporte, o imprevisto – para cada um há uma projeção do que pode ser gasto. A pergunta muda de “sobrou?” para “cabe?”. E “cabe?” é uma pergunta que você faz antes, no momento da decisão, quando ainda dá pra escolher. A clareza deixa de ser um diagnóstico do passado e vira uma bússola do presente.

Quando entendemos essa margem ao longo do mês, deixamos de pensar em cortar gastos e passamos a entender como podemos gastar. Por isso que disse que o controle não era de restrição, mas de liberdade. Passa-se a ter a liberdade de escolher como gastar aquele valor, quais são as prioridades de cada área, em cada momento.

E aqui é possível que você leia as próximas linhas na busca de um passo a passo de como fazer essa organização, talvez querendo uma regra para seguir. Sinto decepcionar, mas “cada macaco no seu galho”. Não é prudente dizer que todo mundo deve seguir uma proporção. Assim como João e Gregório criaram suas próprias versões dos ditados, é melhor que cada pessoa também ajuste o que pode ser gasto em cada área da vida de acordo com a própria realidade.

É melhor “cada qual, em seu cada qual”. Assim, depois, ninguém chora o leite derramado.

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