Feliz Aniversário, Raulzito!

Por Pacheco Maia
Neste domingo, 28 de junho, Raul Santos Seixas completaria 81 anos, caso não tivesse se despedido de nosso planeta há 36 anos e quase 10 meses, em 21 de agosto de 1989. O fim é inevitável, independentemente de quanto demore.
Isso não interessa. Principalmente porque o que me motiva neste momento a escrever algumas histórias é celebrar mais uma vez o nascimento deste grande ser humano e artista brasileiro, que tinha e tem uma ligação visceral com os EUA.
Dois terços de sua prole, Vivian é a única que permanece no Brasil, as demais filhas de casamentos com duas americanas vivem lá: Simone e Scarlet. Já ganhou até um neto americano homônimo: Raul! Será que promoverá nos States a revolução que o avô promoveu no Brasil com o rock ‘n’ roll? Quem sabe?
Mas também não me interessa. Reitero meu objetivo é mais uma vez expressar uma homenagem a esse cara que exerceu tanta influência positiva na minha vida, seja cultural, filosófica, intelectual, musical, enfim, me deu muitos toques.
Era baiano de Salvador, assim como eu. Nasceu na Avenida Sete de Setembro, na casa dos avós maternos. Em 1945, o logradouro inaugurado nos anos 20 do Século XX pelo governador que dá nome à Baixa dos Sapateiros, J.J Seabra, abrigava estabelecimentos comerciais, de serviços, institucionais e também residenciais. A cidade pulsava por ali.
Era comum que os donos das lojas morassem sobre elas, que funcionavam na parte térrea ao nível da rua. Era o caso da residência dos pais de Dona Maria Eugênia, a mãe de Raulzito. Embaixo funcionava um estabelecimento do pai dela para a venda e assistência técnica de geladeiras.
Nesta casa na Avenida Sete, no trecho entre o Rosário e a Praça da Piedade, funcionou depois que os familiares de Raulzito deixaram o local: o restaurante a Casa Portuguesa. Uma vez almocei lá um delicioso filé mignon com fritas e pude circular por onde ele, Raulzito, nasceu. Com certeza, o ambiente estava bem modificado mais de 40 anos depois.
Foi na casa dos avós onde Raulzito passou maus bocados decorrente de uma brincadeira com o irmão Plininho, que lhe deixou trancado numa geladeira da loja. É uma história manjada já bastante relatada nas mais diversas formas.
O confinamento desfaleceu ele pela falta de oxigênio, mas foi socorrido pela mãe quando perguntou ao irmão caçula por onde estava o mais velho. Ela chegou há tempo de evitar a tragédia e a sequela foi a claustrofobia que Raulzito carregou pelo resto da vida.
O meu interesse por Raul
Seixas me levou a gravar uma série de entrevistas com a mãe dele. Foram mais de sete horas de conversas em dias diferentes. Quando ela autorizava, eu estava lá com dois amigos que mantinham fãs clubes do Maluco Beleza e fizeram a ponte com ela: Laio e Alexandre.
Eram tardes gloriosas. Ela, uma mulher incrível. Simpatia exuberante, memória prodigiosa e uma cordialidade ímpar. Pela sala do apartamento na Av. Sabino Silva, quarto andar do edifício Vivendas do Vale, circulava um beagle que lhe fazia companhia. Já era viúva. Seu Raul havia morrido. Estive dessa vez lá no início dos anos 1990.
Já estivera para gravar uma entrevista com ela a ser usada num programa da então Rádio Transamérica, que nem mais existe, em 1989. Iria ao ar no 28 de junho para comemorar o aniversário dele daquele ano. Na ocasião, Seu Raul ainda estava vivo, mas adoentado permanecera no quarto. Me acompanhavam os amigos jornalistas Isaac Jorge e Gustavo Vieira.
Foi uma entrevista muito legal, que editamos e usamos os trechos em que ela falava da vida de Raul em meio às canções dele.
Minha frustração dessa história foi ela me pedir a gravação do programa para mandar a Raul que ficara curioso e eu não consegui entregá-la antes do trágico 21 de agosto. Não tinha que ser.
O casamento dos pais de Raul ocorreu na Igreja do Bonfim e lá mesmo foi batizado. Depois de casados, a família foi morar na Praia da Boa Viagem, na Rua Itapicuru 13. Dona Maria Eugênia me contou as estripulias de Raulzito e Plininho. Saiam de madrugada sem comunicar aos pais para, nas palavras dela, “furar onda”. Devia ser pegar jacaré na praia. Fora alertada por uma vizinha.
Tem um “causo” também nem um pouco politicamente correto dos garotos. Zé era um “cria” que Dona Maria Eugênia trouxera para Salvador a pedido dos pais, pessoas muito humildes do interior, que queriam que ele estudasse. Naquele tempo, estudar na roça não era fácil.
Responsável pela comunicação dos trens da Leste, Seu Raul sempre levava a família nas viagens ferroviárias. Passavam estadias nas cidades e numa delas atenderam ao apelo dos pais de Zé e o trouxeram para fazer companhia aos filhos.
Não é que os “meninos travessos”, como os caracterizava, um dia aprontaram com Zé. Estava Dona Maria Eugênia a descansar depois do almoço, quando surge o “inocente e besta rapaz do interior” todo esbaforido.
“O que foi, Zé?”. “Dona Maria Eugênia, os meninos botaram ‘orina’ dentro da garrafa de guaraná e me deram para beber”. “E você bebeu?”. “Um pouco achando que era guaraná”. “Mas, Zé…”.
Talvez pouca gente saiba. Eu mesmo que ouvi a história nunca a publiquei. Só comentei com alguns amigos. Dona Maria Eugênia me contou que Lauro de Freitas, aquele que dá nome à vizinha cidade de Salvador, salvou o casamento dela com Seu Raul.
Namoravam há um bom tempo, noivaram conforme o figurino da época e, quando marcaram o casamento, o Brasil estava participando da Segunda Guerra Mundial. Para azar, Seu Raul foi convocado por causa de seu conhecimento na área de telecomunicações, necessário às tropas.
Quem impediu a ida de Seu Raul para a Itália se juntar aos pracinhas foi o diretor da Leste Brasileira, Lauro Farani Pedreira de Freitas. Quando soube da convocação, mexeu os pauzinhos para evitá-la. Não podia prescindir do jovem que “prestava inestimáveis serviços” à empresa que dirigia.
Deu certo! O casamento aconteceu e o casal pode trazer ao mundo o inesquecível Raulzito, que ficou famoso e se transformou no maior mito da música brasileira como Raul Seixas.
Por hoje já deu. Voltarei ao tema com a lembrança das histórias que ouvi da mãe, de Kika Seixas e de amigos dele, além do pesquisado e lido, e minhas próprias impressões. Feliz aniversário, Raulzito!



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