Ônibus em Salvador: documentos enviados ao STF revelam intervalos maiores no segundo turno

Levantamento do jornal O Globo identifica diferenças entre os horários planejados para o segundo turno e a frequência dos dias úteis; secretário Pablo Souza defende operação e aponta interferência de apoiadores de Lula

Ônibus em Salvador: documentos enviados ao STF revelam intervalos maiores no segundo turno
Divulgação

Documentos apresentados pela Prefeitura de Salvador ao Supremo Tribunal Federal (STF) indicam que algumas linhas de ônibus tiveram intervalos programados para o segundo turno das eleições de 2026 superiores aos registrados normalmente em dias úteis. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo e ampliam a discussão sobre a oferta de transporte público na capital baiana durante a votação do último domingo (25).

Segundo a publicação, um ofício encaminhado às empresas responsáveis pelo transporte coletivo em 19 de outubro estabeleceu as diretrizes da operação especial para o dia da eleição. A análise identificou diferenças entre os intervalos previstos no documento e os horários disponibilizados pela Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) para dias úteis.

As divergências foram observadas em linhas que atendem regiões importantes da cidade, incluindo Pirajá, Mussurunga, Patamares, Sete de Abril e Estação da Lapa.

Linhas de ônibus tiveram intervalos previstos de até 70 minutos

Entre os casos destacados pelo levantamento está a linha 1246, que faz a ligação entre Pirajá e Patamares. Enquanto a frequência habitual nos dias úteis é de aproximadamente 22 minutos, o planejamento apresentado para o segundo turno estabelecia um intervalo de 70 minutos.

Na linha 1328, responsável pelo trajeto entre as estações Pirajá e Mussurunga, a programação eleitoral previa espera de 40 a 50 minutos. Em dias úteis, os intervalos informados pela Semob variam entre 25 e 30 minutos.

Outra diferença foi identificada na linha 141, que conecta a Estação da Lapa ao Hospital Geral do Estado (HGE). Para o domingo de votação, o intervalo programado era de 55 minutos, enquanto a frequência regular é de 22 minutos.

Já a linha 1324, entre a Estação Pirajá e Sete de Abril, tinha previsão de circulação com intervalos de 40 a 50 minutos, diante dos 26 minutos indicados para dias úteis.

Justiça Eleitoral determina transporte gratuito e frequência adequada

As diferenças apontadas nos documentos levantam questionamentos sobre o cumprimento das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral para o transporte público durante as eleições.

A resolução eleitoral determina a gratuidade do serviço no dia da votação e exige que a oferta de ônibus tenha frequência compatível com aquela praticada em dias úteis.

A operação do transporte coletivo em Salvador também se tornou alvo de uma disputa política. Integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda do governador Jerônimo Rodrigues, acusam a administração do prefeito Bruno Reis (União Brasil) de reduzir a circulação dos veículos e prejudicar o deslocamento dos eleitores.

Diante das denúncias, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) solicitou a investigação do episódio pela Polícia Federal.

Pablo Souza nega irregularidades no planejamento dos ônibus

Nesta terça-feira (27), o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, apresentou a versão da prefeitura sobre a operação realizada no segundo turno.

Em entrevista à rádio Antena 1, o gestor afirmou que o planejamento adotado repetiu o modelo utilizado no primeiro turno, mantendo a mesma quantidade de veículos.

Segundo ele, a legislação eleitoral não exige que todos os ônibus utilizados nos dias úteis estejam em circulação durante a votação, mas estabelece a necessidade de uma frequência adequada para atender à população.

“A Secretaria de Mobilidade planejou a mesma operação do primeiro turno para atender ao segundo turno, com a mesma frota. Salvador nunca, em sua história, e conversei ontem com diversos gestores de mobilidade do país, que me trouxeram a informação de que outras capitais também não fizeram isso, adotou 100% da frota em um dia de eleição. A resolução do TSE não determina isso. Ela determina que a gente adote uma frequência adequada”, afirmou em entrevista à rádio Antena 1.

Secretário responsabiliza apoiadores de Lula por problemas na saída dos ônibus

Além de defender o planejamento municipal, Pablo Souza atribuiu parte dos transtornos registrados no domingo à atuação de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas garagens das empresas de transporte.

De acordo com o secretário, grupos teriam realizado a colocação de adesivos com propaganda eleitoral nos coletivos, provocando dificuldades para a liberação dos veículos.

“Tivemos um grupo de apoiadores do presidente Lula que foi às garagens promover um adesivaço nos ônibus. Eles estavam impedindo os ônibus de sair sem que fossem colados os adesivos. As empresas, em um primeiro momento, observaram também uma colagem massiva feita por rodoviários, que têm crachá e livre acesso às garagens, com o número 13 nos ônibus. Começaram a fazer a remoção e uma liberação gradativa”, declarou.

As afirmações representam a versão apresentada pelo secretário municipal e não estabelecem, por si só, a responsabilidade pelos problemas registrados.

O episódio segue cercado de questionamentos sobre a execução da operação especial e o cumprimento das determinações eleitorais. A investigação solicitada pelo TRE-BA deverá apurar as circunstâncias relacionadas à oferta de ônibus durante o segundo turno em Salvador.

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