Engajamento a qualquer custo: os limites da polêmica no ambiente digital
Confira o artigo de Gegê Magalhães

Por Gegê Magalhães
A consolidação das redes sociais como principal ambiente de informação e interação da sociedade trouxe avanços inegáveis na democratização da comunicação. No entanto, esse mesmo ambiente tem evidenciado distorções que precisam ser debatidas com profundidade, especialmente no que diz respeito à lógica do engajamento.
Hoje, o alcance de uma publicação está diretamente relacionado à sua capacidade de gerar reação. Curtidas, comentários e compartilhamentos passaram a ser indicadores centrais de relevância. Nesse contexto, o conteúdo deixa de ser avaliado apenas por sua qualidade ou veracidade e passa a ser impulsionado, sobretudo, pelo nível de interação que provoca.
É nesse ponto que surge uma inversão preocupante: o engajamento não distingue mérito, distingue impacto.
E, cada vez mais, impacto tem sido associado à polêmica.
A dinâmica dos algoritmos privilegia conteúdos que despertam emoções intensas, como indignação, revolta ou confronto. Isso faz com que publicações críticas, muitas vezes desproporcionais ou descontextualizadas, alcancem níveis elevados de visibilidade.
Observa-se, assim, o crescimento de uma prática recorrente: a utilização deliberada de temas sensíveis ou abordagens provocativas como estratégia para ampliar alcance. Trata-se de um movimento que, embora eficaz do ponto de vista numérico, fragiliza o compromisso com a informação qualificada.
A experiência recente vivida por este autor durante o Carnaval ilustra esse fenômeno. Uma publicação sensacionalista, sem aderência ao contexto real, gerou ampla repercussão nas redes sociais. A maioria das manifestações foi de apoio, refletindo uma trajetória construída ao longo do tempo. No entanto, a própria controvérsia ampliou o alcance da publicação, evidenciando como o sistema recompensa a polarização.
Esse comportamento não se restringe a indivíduos. Ele se estende a cidades, destinos turísticos e setores econômicos. Narrativas negativas, muitas vezes baseadas em recortes isolados, passam a circular com intensidade, influenciando percepções e impactando reputações.
No caso de destinos turísticos, como Salvador, temas sensíveis podem ser explorados de forma desproporcional, criando uma percepção que nem sempre corresponde à realidade. Em um ambiente competitivo, no qual cidades disputam visibilidade, fluxo de visitantes e investimentos, esse tipo de abordagem merece atenção.
Diante desse cenário, torna-se fundamental reafirmar o papel da responsabilidade na comunicação. O engajamento, por si só, não pode ser o único parâmetro de sucesso.
A construção de reputação exige consistência, transparência e compromisso com a verdade. Enquanto a polêmica pode gerar resultados imediatos, é a credibilidade que sustenta relações no longo prazo.
Mais do que compreender o funcionamento dos algoritmos, é preciso refletir sobre o uso que se faz deles.
Porque, em última análise, o desafio não é apenas engajar.
É engajar com responsabilidade.



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