Danos ligados às apostas custam R$ 30,6 bilhões por ano ao SUS

Estudo aponta peso bilionário de problemas associados aos jogos de azar; procura por atendimento no SUS aumentou 140% em cinco anos e governo ampliou serviço de apoio psicológico

Brasil
Danos ligados às apostas custam R$ 30,6 bilhões por ano ao SUS
Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

Os impactos à saúde relacionados às apostas online representam um custo estimado de R$ 30,6 bilhões por ano ao Sistema Único de Saúde (SUS). O levantamento é do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e considera despesas associadas ao tratamento de depressão, ansiedade e também os impactos provocados por mortes por suicídio.

Apesar do tamanho do impacto estimado, apenas 1% do valor arrecadado das operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para ações voltadas à redução desses danos.

Outro dado chama atenção para o avanço do problema no país. Nos últimos cinco anos, houve um crescimento de 140% na procura por atendimento no SUS devido à dependência relacionada a apostas online e jogos de azar.

Segundo o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o aumento foi identificado em toda a Rede de Atenção Psicossocial. Diante da demanda, foi criado um serviço de teleatendimento específico para pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas.

“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste.”

Com a procura crescente, a capacidade do serviço foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil teleatendimentos por mês, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).

Milhões de CPFs bloqueados em sites de apostas

Outro indicador citado pelo Ministério da Saúde está relacionado à plataforma de autoexclusão criada pelo Ministério da Fazenda. Mais de 5 milhões de CPFs foram bloqueados em plataformas de apostas online autorizadas pelo governo federal.

A medida alcança, entre outros públicos, beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além de pessoas incluídas em programas de renegociação de dívidas.

Mais de 1 milhão de usuários também solicitaram voluntariamente a autoexclusão. Entre essas pessoas, quase metade informou problemas de saúde mental relacionados às apostas.

O vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, morador de Lages, em Santa Catarina, está há cerca de dois meses sem apostar. Ele começou aos 18 anos e afirma ter perdido aproximadamente meio milhão de reais durante seis anos.

Para evitar recaídas, Gustavo recorreu à plataforma de autoexclusão.

“Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa”, lembra.

Depois de abandonar as bets, o jovem passou a vender café nas ruas de Lages para reconstruir a vida. Ele afirma que o enfrentamento da dependência exige atenção permanente.

“Não me orgulho de nada do que eu fiz nessa época, e hoje, graças a Deus, eu consigo, com muita transparência, falar com as pessoas, ajudá-las, ainda faço acompanhamento, é uma luta diária contra o vício.”

Família pode ter papel importante no tratamento

O apoio familiar também pode ser importante no processo de recuperação. Carla Xavier*, de 41 anos, frequentadora da irmandade Jogadores Anônimos, está há mais de um ano sem jogar.

“Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar. Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”, lembra.

”Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil”, aponta.

Para Carla, reconhecer a compulsão como um problema que exige ajuda é uma das principais dificuldades enfrentadas por quem desenvolve dependência.

“Uma compulsão, uma doença que você não entende que aquilo é uma doença. Você acha que ‘eu jogo, mas eu paro quando eu quero’, mas não é assim. A partir do momento que você desenvolveu a compulsão, você precisa de ajuda para poder parar.”

Familiares e amigos também podem encontrar suporte por meio da JOG-Anon, organização ligada ao apoio de pessoas próximas a jogadores compulsivos.

“Nós temos uma sala, uma irmandade paralela que se chama JOG-Anon, que é para familiares. Eles frequentam junto com a gente, mas na nossa sala só tem jogadores. Na sala de JOG-Anon só tem familiares, amigos, simpatizantes. A pessoa é uma codependente, mas não conhece o assunto, o melhor caminho é o JOG-Anon.”

Especialistas apontam sinais de alerta

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, afirma que familiares devem procurar ajuda quando perceberem sinais relacionados à dependência. Entre eles estão isolamento, alterações de humor e aumento dos gastos.

“Não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio”, diz.

Em relação às crianças e adolescentes, o psiquiatra forense Hewdy Lobo aponta a permissividade familiar no controle do tempo dedicado aos jogos como um dos fatores que podem contribuir para o problema.

Já a especialista em direito digital Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, afirma que o comportamento deve ser observado, e não apenas a quantidade de horas diante das telas.

”Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar um acompanhamento profissional”, alerta a advogada.

Dependendo de cada caso, o tratamento pode envolver acompanhamento psicológico, psiquiátrico e medicamentos.

Onde buscar ajuda

O SUS disponibiliza apoio gratuito para pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas. O atendimento psicológico remoto pode ser acessado pelo Meu SUS Digital, enquanto o atendimento presencial está disponível nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs).

Familiares também podem receber assistência. O atendimento é sigiloso e permite encaminhamento para acompanhamento especializado.

Grupos como os Jogadores Anônimos também oferecem reuniões presenciais e online. Em situações de sofrimento emocional ou crise, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo telefone 188 e pela internet.

*Nome preservado conforme apresentado pela matéria da Agência Brasil.

Comentários:

Ao enviar esse comentário você concorda com nossa Política de Privacidade.

Logo Sou da Bahia
Resumo das Políticas

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.