Vandalismo contra monumentos históricos em Salvador consome quase R$ 1 milhão em dois anos
Para frear a degradação, a Guarda Civil Municipal (GCM) intensificou as rondas preventivas e implementou uma nova ferramenta tecnológica de suporte

Os recorrentes atos de vandalismo, pichação e furto de partes de esculturas públicas em Salvador têm colocado em risco a preservação da memória artística e cultural da capital baiana, além de gerar um impacto financeiro expressivo para os cofres municipais.
Entre 2025 e o início de 2026, a Prefeitura de Salvador, por meio da Fundação Gregório de Mattos (FGM), aportou cerca de R$ 945 mil para restaurar e recuperar monumentos depredados. Os valores empreendidos na manutenção de cada peça variaram de R$ 3 mil a R$ 200 mil, a depender da extensão dos danos e da complexidade técnica do restauro.
Casos emblemáticos ilustram a gravidade e a reincidência das ações criminosas. A estátua em homenagem ao poeta Vinícius de Moraes, esculpida em tamanho natural pelo artista plástico Juarez Paraíso e instalada em Itapuã, teve o pulso e o antebraço serrados em uma tentativa de furto poucos dias após ter passado por uma reforma completa.
Outro alvo frequente é a estátua Gandhi Andante, localizada na Praça da Inglaterra, no Comércio; o monumento ao líder pacifista indiano teve os óculos furtados e, enquanto a FGM elaborava o orçamento de reparo, sofreu novos ataques com o furto de partes do cajado e da vestimenta de bronze, o que exigiu um aditivo contratual antes mesmo do início das obras.
Para frear a degradação e otimizar a identificação dos infratores, a Guarda Civil Municipal (GCM) intensificou as rondas preventivas e implementou uma nova ferramenta tecnológica de suporte. O órgão disponibilizou um canal exclusivo para denúncias da população via WhatsApp, através do número (71) 99623-4955, que recebe mensagens de texto, fotos e áudios de até 30 segundos. Vale destacar que, conforme o Código Penal Brasileiro, o crime de dano qualificado praticado contra o patrimônio público de estados ou municípios prevê pena de detenção que pode chegar a até três anos, além de multa.
Cronograma de intervenções
O monitoramento e a fiscalização do acervo a céu aberto são coordenados pela Gerência de Patrimônio Cultural da FGM, que trabalha em parceria com a Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal) e a Secretaria Municipal de Manutenção (Seman). As prioridades de intervenção são definidas com base em relatórios técnicos e denúncias comunitárias, avaliando o valor simbólico do bem, a urgência dos reparos e o orçamento disponível.
A maior parte dos trabalhos de alta complexidade é executada pelo pesquisador e especialista José Dirson Argolo, professor do curso de Artes Plásticas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que atua no segmento há mais de quatro cores. Em casos específicos, o restauro é confiado aos próprios criadores das obras, a exemplo das intervenções no Caminho da Fé, na Cidade Baixa, conduzidas pelo ateliê de Juarez Paraíso.
Educação patrimonial
Historiadores e gestores culturais apontam que a destruição desses ativos representa uma violação da identidade coletiva da sociedade baiana. O professor e historiador Murilo Mello ressalta que as primeiras estátuas da cidade seguiram uma forte inspiração francesa do final do Século XIX e que a depredação de imagens como a de Mãe Stella de Oxóssi — que chegou a ser incendiada em 2022 — configura uma intolerância direta contra segmentos específicos da história local, gerando um prejuízo financeiro que impede o direcionamento de recursos para programas sociais.
Diante desse cenário, os novos projetos de engenharia e escultura encomendados pelo município já estão sendo concebidos com ligas metálicas, ancoragens e soluções técnicas que dificultam a ação de serras e tentativas de furto. Em paralelo, a FGM mantém eixos fixos de conscientização nas escolas e espaços públicos por meio de projetos de educação patrimonial, a exemplo das iniciativas “Patrimônio é…”, “Reconectar” e “Jornada do Patrimônio Cultural”.
“A Guarda Civil Municipal intensificou as rondas preventivas para coibir o vandalismo, e agora, também disponibilizamos um número exclusivo para denúncias via WhatsApp. A população pode enviar relatos em texto, áudios de até 30 segundos ou fotos, ajudando a combater furtos e atos contra o patrimônio público e a proteger nossas riquezas culturais”, pontuou o inspetor-geral da GCM, Marcelo Silva.
“A instituição também desenvolve ações permanentes de educação patrimonial, visando fortalecer o reconhecimento e o cuidado coletivo com os bens públicos e a memória da cidade”, concluiu Roberta Santucci, gerente de Patrimônio Cultural da FGM.



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