Setembro Amarelo: escuta ativa ajuda escolas a transformar relatos de bullying em ações de cuidado e prevenção
Ferramenta funciona desde julho de 2025 e permite que vítimas e testemunhas relatem casos de intimidação de forma anônima e confidencial

A atenção à saúde mental de crianças e adolescentes vai além do acompanhamento individual e também envolve a qualidade das relações estabelecidas no ambiente escolar. Durante o Setembro Amarelo, o tema ganha maior visibilidade e chama atenção para a importância de manter espaços seguros nos quais estudantes possam pedir ajuda diante de situações de violência, exclusão ou sofrimento.
Em Salvador, o Colégio Anchieta mantém, desde julho de 2025, um canal específico para receber relatos relacionados a bullying. A ferramenta pode ser utilizada por vítimas ou testemunhas para comunicar, de maneira anônima e confidencial, episódios de intimidação física, verbal, psicológica ou virtual.
Após o recebimento, cada relato passa por um fluxo interno de análise, acolhimento e encaminhamento. Uma equipe preparada avalia as circunstâncias apresentadas e acompanha os estudantes envolvidos de acordo com as particularidades de cada situação.
Além de oferecer um espaço para denúncias e pedidos de ajuda, o canal tem permitido à instituição observar com mais atenção as relações entre os alunos. A partir dos registros, a escola pode identificar episódios recorrentes, revisar procedimentos e planejar medidas educativas e preventivas voltadas para diferentes faixas etárias e contextos.
Para Klecius Oliveira, diretor de ensino do Colégio Anchieta, oferecer um espaço de escuta é apenas uma das etapas do processo.
“Quando um estudante sabe que pode falar e que será levado a sério, ele entende que não precisa enfrentar sozinho uma situação de violência. O canal é uma porta de entrada. O que realmente importa é o que fazemos depois: acolher, compreender o contexto, agir com responsabilidade e acompanhar cada situação”, pontua.
Nem todo conflito é bullying
A análise individual dos relatos também é considerada fundamental para diferenciar situações de bullying de conflitos pontuais entre estudantes. A caracterização pode levar em conta fatores como repetição ou continuidade das agressões, desequilíbrio de poder, intimidação, humilhação e exclusão.
Essa avaliação busca evitar tanto a minimização de episódios graves quanto a classificação precipitada de desentendimentos comuns como bullying.
Outro ponto considerado essencial é a preparação dos profissionais que mantêm contato diário com crianças e adolescentes. Mudanças repentinas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar ou alterações nas relações sociais podem funcionar como sinais de que o estudante precisa de atenção, mesmo quando não existe um pedido direto de ajuda.
“Um canal de escuta só faz sentido quando o estudante confia que haverá um adulto preparado do outro lado. Por isso, nosso compromisso não termina no recebimento do relato. Ele começa ali. Professores, coordenadores, orientadores e demais profissionais precisam saber acolher, avaliar cada situação com responsabilidade, agir quando necessário e acompanhar o estudante ao longo do processo”, afirma Klecius.
Prevenção no ambiente escolar
As informações recebidas pelo canal também podem orientar medidas preventivas. Quando determinados comportamentos aparecem com maior frequência, a escola pode desenvolver atividades sobre convivência, revisar práticas e abordar assuntos como respeito, empatia, responsabilidade e cuidado com o próximo.
A discussão ganha relevância durante o Setembro Amarelo, campanha dedicada à prevenção do suicídio e à valorização da vida. Sem estabelecer uma relação direta de causa e efeito, a instituição considera que experiências envolvendo violência, isolamento e exclusão podem afetar o bem-estar de crianças e adolescentes e, por isso, precisam receber atenção.
Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos convive com algum transtorno mental. O dado reforça a importância de redes de apoio preparadas para identificar sinais de sofrimento e oferecer suporte adequado.
“Prevenção não pode acontecer apenas em momentos específicos do calendário. Ela precisa estar presente no cotidiano, nas relações, na forma como a escola escuta seus estudantes e na maneira como intervém diante de uma situação de violência. Quando conseguimos transformar um relato em acolhimento e, a partir dele, em uma ação preventiva, estamos fortalecendo toda a comunidade escolar”, conclui o diretor de ensino.
Após mais de um ano de funcionamento do canal, a experiência adotada pelo Colégio Anchieta reforça que a escuta é apenas o primeiro passo. A construção de um ambiente escolar seguro depende também da confiança dos estudantes nos adultos responsáveis e da capacidade da instituição de transformar relatos em acolhimento, acompanhamento e ações permanentes de prevenção.



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