Novo estudo mostra que o IMC pode falhar na avaliação da saúde
Ferramenta baseada em dados de 197 mil pessoas analisa múltiplos fatores de saúde e pode transformar decisões médicas

Pesquisadores do Reino Unido desenvolveram um modelo capaz de prever, com maior precisão, o risco de desenvolvimento de doenças graves em pessoas com sobrepeso ou obesidade. O estudo foi publicado nesta quinta-feira (30) na revista científica Nature Medicine.
A nova ferramenta surge em meio a críticas ao uso do índice de massa corporal (IMC) como principal parâmetro clínico. Embora amplamente utilizado, o indicador não consegue captar diferenças relevantes entre indivíduos com características semelhantes de peso.
Batizado de OBSCORE, o modelo foi construído a partir da análise de dados de cerca de 197 mil adultos com IMC igual ou superior a 27, coletados no UK Biobank — um dos maiores bancos de dados de saúde do mundo. Os participantes foram acompanhados ao longo de uma década.
Durante o período, os cientistas investigaram quais fatores estavam mais associados ao surgimento de complicações relacionadas à obesidade. A ferramenta considera aproximadamente 20 variáveis clínicas e metabólicas, incluindo idade, sexo, pressão arterial, níveis de glicose, colesterol e histórico médico.
A partir dessas informações, o sistema calcula o risco individual de desenvolver problemas de saúde em até 10 anos. Entre as condições avaliadas estão doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, doença renal e alguns tipos de câncer.
Os resultados indicam que pessoas com o mesmo IMC podem apresentar riscos significativamente diferentes. Em alguns casos, indivíduos classificados como obesos demonstraram baixa probabilidade de complicações, enquanto outros, com perfil semelhante, apresentaram risco elevado.
Um dos destaques do estudo foi a variação no risco de morte por causas cardiovasculares, que foi de aproximadamente 0,1% nos grupos de menor risco até cerca de 5,7% entre os de maior risco ao longo do período analisado.
Limitações do IMC
A pesquisa reforça que o IMC, apesar de útil como ferramenta inicial de triagem, não reflete aspectos importantes da saúde metabólica. Elementos como distribuição de gordura corporal, inflamação e funcionamento do metabolismo não são considerados no cálculo.
Com isso, o uso isolado do índice pode resultar em avaliações imprecisas. O OBSCORE busca superar essa limitação ao integrar diferentes dimensões da saúde em uma única análise.
Segundo os autores, o modelo pode auxiliar profissionais de saúde na identificação mais precisa de pacientes que necessitam de intervenções mais intensivas, como mudanças no estilo de vida ou uso de medicamentos.
Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores ressaltam que a ferramenta ainda precisa ser validada em diferentes populações antes de ser aplicada de forma ampla. Como o estudo foi baseado em dados do Reino Unido, sua utilização em outros países exige testes adicionais.
A principal conclusão do trabalho é que a obesidade não deve ser avaliada apenas por indicadores simplificados, mas sim por um conjunto mais abrangente de fatores de saúde.



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