“Não é desejo, é fetiche”: especialista alerta sobre hipersexualização de pessoas negras

Pesquisa identifica a reprodução de estereótipos raciais em relacionamentos inter-raciais. Sexólogo Januário Mourão explica os impactos da hipersexualização e da objetificação

Notícias
“Não é desejo, é fetiche”: especialista alerta sobre hipersexualização de pessoas negras
Ensaio Corporativo – Januario_UlussesDumas

A fetichização racial ainda influencia a maneira como pessoas negras são percebidas e tratadas em relações afetivas e sexuais. A transformação de características físicas em fantasias e expectativas sobre o comportamento sexual pode comprometer o reconhecimento da individualidade, a autoestima e a construção de relações baseadas no respeito.

Uma pesquisa publicada na revista Psicologia & Sociedade, intitulada “Sentidos atribuídos por mulheres negras em relacionamentos inter-raciais: intersecções entre racismo e violência doméstica”, identificou como a hipersexualização e a objetificação de mulheres negras também aparecem dentro de relacionamentos.

O estudo analisou experiências de duas mulheres negras que vivenciaram racismo e violência doméstica em relacionamentos com homens brancos. Entre os relatos estão associações dos corpos negros à disponibilidade sexual, objetificação de características físicas e tentativas de controlar roupas, saídas e comportamentos.

As práticas têm raízes históricas no período colonial e na escravização da população negra, quando corpos foram submetidos à exploração sexual e à desumanização. Ao longo do tempo, esses estereótipos foram reproduzidos na cultura, na publicidade e no entretenimento, associando mulheres negras à disponibilidade sexual e homens negros à virilidade e ao desempenho.

Diferença entre atração e fetichização racial

O sexólogo Januário Mourão, especialista em Sexologia e Sexualidade e autor do livro Pequeno Manual Antimachista, explica que a hipersexualização está relacionada a um processo histórico de desumanização.

“Quando falamos em hipersexualização dos corpos negros, estamos falando de um processo histórico de desumanização que transformou características físicas em atributos sexuais presumidos. A pessoa deixa de ser reconhecida em sua individualidade e passa a ser interpretada a partir de uma fantasia racial. Existe uma diferença fundamental entre sentir atração por alguém e fetichizar sua identidade: no segundo caso, o interesse não está necessariamente na pessoa, mas naquilo que ela representa dentro de um imaginário construído pelo racismo. Isso compromete a possibilidade de estabelecer relações em que o desejo seja acompanhado de respeito e reconhecimento”, explica Januário.

Segundo o especialista, a fetichização pode aparecer em comentários sobre características físicas, abordagens baseadas em estereótipos e expectativas sobre o comportamento sexual.

Os impactos também atingem a autoestima e a autonomia. Mulheres negras podem enfrentar cobranças para corresponder a uma imagem de disponibilidade sexual, enquanto homens negros são frequentemente associados à expectativa de virilidade permanente.

“Quando uma mulher negra é constantemente associada à disponibilidade sexual ou um homem negro é colocado no lugar da virilidade permanente, ambos passam a lidar com expectativas que não necessariamente correspondem aos seus desejos. Isso pode produzir cobranças, inseguranças e dificuldades para estabelecer limites. Na Sexologia, compreendemos que uma vivência sexual saudável depende da possibilidade de reconhecer o próprio corpo, expressar vontades, recusar práticas e construir experiências sem a obrigação de corresponder a um padrão externo”, analisa o especialista.

Consentimento e respeito nas relações

O enfrentamento da fetichização racial passa pelo questionamento de comportamentos naturalizados e pelo reconhecimento da autonomia de cada pessoa. Para Januário, mesmo em relações consensuais, é importante observar como as expectativas racializadas podem influenciar as experiências.

“É importante compreender que o consentimento, por si só, não elimina a necessidade de questionar as estruturas que atravessam uma relação. Uma pessoa pode até concordar com determinada experiência, mas isso não significa que esteja livre de pressões sociais ou expectativas racializadas. Construir relações afetivas e sexuais mais saudáveis exige reconhecer o outro como sujeito de desejo, com história, limites e individualidade. O enfrentamento da hipersexualização começa justamente quando deixamos de enxergar corpos negros como categorias ou fantasias e passamos a reconhecê-los em toda a sua humanidade”, conclui Januário.

Comentários:

Ao enviar esse comentário você concorda com nossa Política de Privacidade.

Logo Sou da Bahia
Resumo das Políticas

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.