Falando de Dinheiro: Deixei de existir

Ao se afastar das redes sociais, autor reflete sobre consumo, controle e a importância de existir mais no mundo real

Falando de Dinheiro: Deixei de existir

Deixei de existir por um tempo. Se vivemos uma época em que a presença é substituída pelo like, fui um ser inexistente por algumas semanas. Tanto não existi para o mundo quanto o mundo não existiu para mim.

Ou será que, justamente por isso, eu vivi o mundo nas últimas semanas?

Deixa eu explicar um pouco melhor. Pouco antes do Natal, decidi fazer um detox de redes sociais. Nada de entrar, nada de postar. Não vi e não fui visto.

O desafio surgiu meio por acaso. A dependência das redes sociais já me incomodava há algum tempo. Tentei controlar, diminuir o impacto no dia a dia, mas sem muito sucesso. No fim do ano passado, li Trabalho Focado e fiquei ainda mais convencido de como essas pequenas pílulas de satisfação – vídeos, mensagens, notificações – atrapalham mais do que ajudam.

A decisão veio simples: só volto para as redes no dia 5 de janeiro.

Além da ausência no Instagram, o detox incluía um limite diário de uma hora no WhatsApp. Ou seja, deixei de existir.

Ou passei a existir?

Sem o mundo virtual, vivi muito mais o mundo real. Lavei o carro, empinei pipa, brinquei, pedalei, nadei, li um livro e metade de outro, estive mais presente – e até voltei a surfar depois de mais de 20 anos. Vivi.

A experiência virou aprendizado. Não acho que o caminho seja a ausência completa, mas o controle. Eu determino o tempo que passo nas redes. Não são elas que determinam quanto tempo sobra para viver.

Para que isso funcionasse naquele momento, precisei de uma medida mais rígida. Limitei o tempo de uso no celular. Se eu clicasse no aplicativo, aparecia a mensagem de que o tempo já havia sido extrapolado. A decisão de ignorar ou não o aviso era minha.

Isso me lembrou bastante a dificuldade que alguns clientes têm com o cartão de crédito. Tentam segurar, tentam assumir o controle, mas é a fatura que dita o ritmo.

Não gosto muito da ideia de “quebrar os cartões”. Acho que o ideal é ter controle – até porque o cartão também resolve emergências. Mas, em um primeiro momento, uma decisão mais radical pode ajudar.

A partir do momento em que se vive sem o cartão, em que se entende como as coisas funcionam sem ele, aí sim ele pode voltar à cena. Agora com cada um no papel de dono do cartão. Não o contrário.

E é assim que imagino que 2026 será por aqui com as redes sociais. Continuarei nelas, mas o espaço que ocupam nos meus dias será menor – talvez muito menor.

Assim, consigo existir mais.

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