Dia Nacional da Libras reforça debate sobre inclusão e desafios da comunidade surda 

Em entrevista ao Sou da Bahia, o intérprete de Libras Giovanni Montenegro explicou que a data representa não apenas a valorização de uma língua

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Dia Nacional da Libras reforça debate sobre inclusão e desafios da comunidade surda 
Giovanni Montenegro em atuação como intérprete de Libras | Foto: Arquivo Pessoal

Reconhecida como meio legal de comunicação e expressão no Brasil pela Lei 10.436/02, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) volta para o debate nesta sexta-feira (24), data em que é celebrado o Dia Nacional da Libras. Indo além do avanço constitucional, a data chama atenção para desafios ainda presentes no acesso aos direitos da comunidade surda.

Na Bahia, o debate ganha ainda mais relevância. Segundo dados do Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 750 mil baianos convivem com algum grau de perda auditiva. Entre eles, quase 24 mil são totalmente surdos, enquanto os outros se dividem entre alguma e grande dificuldade.

Em entrevista ao Sou da Bahia, o intérprete de Libras Giovanni Montenegro explicou que a data representa não apenas a valorização de uma língua, mas o reconhecimento de uma cultura e de uma luta histórica por pertencimento.

“A importância desta língua é dar visibilidade e voz a quem usa suas mãos para lutar pela garantia de direitos e acessos como pessoas pertencentes dentro de uma sociedade”, afirma.

Trajetória construída pela acessibilidade

A relação de Giovanni com a Libras começou em 2012, de forma espontânea, a partir da amizade com uma mulher surda. O contato, segundo ele, despertou um compromisso que depois se transformou em profissão e militância.

“Comecei na Libras como um amador e amigo de uma surda, fazendo de tudo para entendê-la. Depois fiz curso, me aperfeiçoei em Salvador e passei a atuar como intérprete, ajudando no atendimento à comunidade surda e na acessibilidade em setores públicos do município”, conta.

Ao longo dessa trajetória, Giovanni acompanhou mudanças importantes desde a criação da legislação que reconheceu a língua, mas pondera que o avanço institucional nem sempre se traduz em inclusão efetiva.

Avanços e desafios

Segundo o intérprete, houve maior visibilidade da língua e um crescimento na preocupação com a presença de profissionais em espaços públicos e privados. Ainda assim, ele avalia que boa parte da acessibilidade ainda é superficial.

“Temos uma acessibilidade muitas vezes maquiada. Os surdos ainda sofrem exclusão em ambientes de saúde, educação e outros espaços porque a lei existe, mas nem sempre é cumprida”, diz.

Para Giovanni, uma das principais barreiras ainda está na falta de profissionais capacitados para mediar a comunicação em serviços essenciais.

“A falta de intérpretes em setores de extrema importância ainda é uma realidade. O que falta para uma inclusão efetiva é fazer valer a Lei 10.436/02 em todos os espaços”, pontua.

Direito ao pertencimento

A presença de intérpretes em shows, eventos culturais e atividades públicas também aparece como parte desse debate. Para Giovanni, iniciativas desse tipo representam mais do que medidas de acessibilidade, são formas de garantir participação social.

“Não é favor, é direito. Todos precisam se sentir pertencentes. Como costumo dizer, precisamos conhecer para reconhecer”, afirma.

Ele também chama atenção para uma distinção importante, frequentemente ignorada: acessibilidade e inclusão não são sinônimos.

“As pessoas precisam entender que acessibilidade não é inclusão. Ainda vemos segregação. Se uma pessoa surda chegar hoje a um serviço público, será que terá o acolhimento necessário? Essa é uma pergunta que precisamos fazer”, provoca.

Mais de duas décadas após o reconhecimento oficial da língua, Giovanni defende que a transformação passa por políticas públicas, formação e mudança de mentalidade.

“Ainda vemos o sofrimento dessa classe em pleno século XXI. Está na hora de mudar essa situação”, conclui.

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