Desfile atravessa gerações e mantém viva memória da comunidade em Camaçari
A tradição começou em 1988, quando escolas e moradores se organizaram para realizar uma celebração de 7 de Setembro

O desfile cívico da Gleba E, em Camaçari, nasceu de uma iniciativa dos próprios moradores e, quase quatro décadas depois, continua reunindo estudantes, famílias, grupos culturais e fanfarras pelas ruas do bairro. A tradição começou em 1988, quando escolas e moradores se organizaram para realizar uma celebração de 7 de Setembro, e desde então passou a fazer parte do calendário do município.
A história do desfile é contada pela série “Camaçari 268 anos: Saberes dos Territórios”, que reúne relatos sobre as tradições e memórias das comunidades da cidade. Neste ano, o cortejo acontece no dia 7 de setembro, na Rua das Flores, abrindo a programação de desfiles cívicos do mês.
Tradição que nasceu na comunidade
Segundo Ednalva Oliveira, diretora pedagógica do Centro Educacional Sistema Master (Cesma), a primeira edição surgiu da mobilização dos próprios moradores diante da ausência de uma celebração de 7 de Setembro no bairro.
“Em 1988 nós fizemos o primeiro desfile na Gleba E, porque não existia essa celebração do 7 de setembro em Camaçari. Até que nós, moradores, começamos a fazer um desfile, juntamos a Associação de Moradores, a fanfarra liderada pelo nosso querido amigo Helmo, a equipe do Anísio Teixeira, a equipe aqui do Cesma e várias famílias do bairro. O desfile foi um sucesso, a comunidade aplaudiu, no segundo ano pedimos o apoio da Prefeitura e assim virou tradição”, relata.
A programação também ganhou a alvorada da Gleba E, criada pelo morador Helmo de Oliveira. Com sua fanfarra, ele percorria o bairro nas primeiras horas do dia para convocar os moradores para o desfile. Helmo morreu em 2014, mas a tradição continua sob o comando do filho, Helminho.
“Meu pai foi um dos fundadores desse desfile e criou a fanfarra do nosso bairro. Ele conseguiu alguns instrumentos doados pela Bamuca e criou o projeto Fanfarra Juvenil de Camaçari, a Fanjuc. Foi com essa banda que ele criou a alvorada, onde todo 7 de setembro ele saía às cinco da manhã acordando o bairro, chamando o bairro para o desfile e todo mundo se animava”, conta Helminho.
Legado entre gerações
Além de participar do desfile, Helminho assumiu a missão de manter o trabalho do pai com a Fanjuc. Como instrutor, ele ensina música a crianças e adolescentes e busca transmitir os valores que aprendeu dentro da própria comunidade.
“É uma responsabilidade muito grande manter essa tradição viva, fazem 12 anos que ele faleceu, e eu tenho trabalhado para honrar o legado dele. Formei muitos alunos e eu ouço muitos pais de alunos falarem: ‘eu quero que você faça o que o seu pai fez comigo, com o meu filho, porque o que eu sou hoje eu agradeço ao seu pai e eu quero que meu filho seja o que seu pai passava pra mim’. Que foi o que ele nos ensinou: compromisso, responsabilidade, amor e comunhão”, afirma.
Para a gestora da Escola Municipal Anísio Teixeira, Iara Lima, a participação das novas gerações é uma forma de preservar o sentimento de pertencimento ao bairro. A escola participa do desfile desde a primeira edição.
“São novos alunos, uma nova geração, e a gente precisa trazer o pertencimento do bairro da Gleba E, e fazer com que eles entendam que isso faz parte do dia a dia, da cultura, e tudo que nós estamos trazendo aqui no desfile, nós trazemos no dia a dia dos alunos. A rede nos conecta com um tema e aí a gente começa a fazer um trabalho durante o ano para que quando chegue no dia do desfile isso seja transformado em arte”, explica.
Iara também destaca a expectativa para mais uma edição do cortejo. “Eu particularmente estou muito ansiosa, mas está ficando tudo muito lindo, todos os elementos são feitos pelas nossas mãos com muito carinho, e é uma responsabilidade muito grande porque o Anísio é uma escola que está presente desde o primeiro desfile”, afirma.
Ao longo dos anos, o desfile deixou de ser apenas uma celebração organizada pelos moradores e passou a integrar o calendário oficial de Camaçari, sem perder a característica comunitária. A cada edição, estudantes e antigos moradores se encontram nas ruas do bairro para manter viva uma tradição construída pela própria comunidade.



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