Brasil busca alternativa para evitar rotas longas até a África

Sem voos diretos atualmente, trajetos podem exigir conexões longas; proposta busca baratear custos e fortalecer relações entre os países

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Brasil busca alternativa para evitar rotas longas até a África
Foto: Bruno de Freitas Moura/ Agência Brasil

O governo brasileiro está em articulação para reduzir o tempo de deslocamento aéreo entre o Brasil e Dakar, capital do Senegal, localizada na costa oeste africana. A iniciativa tem como objetivo ampliar o comércio, estimular o turismo e fortalecer a integração com países da África Ocidental.

Atualmente, não existem voos diretos entre os dois países. Em alguns casos, passageiros precisam fazer conexões em locais distantes, como Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o que torna a viagem mais longa e onerosa. Alternativas também incluem escalas em aeroportos europeus ou em cidades africanas mais distantes da América do Sul.

A distância em linha reta entre Natal (RN) e o Senegal é de cerca de 2,9 mil quilômetros — praticamente metade do trajeto até Lisboa e muito menor do que a rota até Dubai. A informação sobre a tentativa de encurtar o tempo de voo foi confirmada à Agência Brasil pela embaixadora do Brasil no Senegal, Daniella Xavier.

“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, disse.

A diplomata participou do Fórum Internacional de Dacar sobre a Paz e Segurança na África, realizado na capital senegalesa, que reúne cerca de 4 milhões de habitantes.

Conexões ainda são entrave

Segundo Daniella Xavier, há um desafio estrutural a ser superado: “o comércio e o turismo não têm escala por falta de conexões; e as conexões não se fazem por falta de escala”.

Ela informou que manteve reuniões recentes com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, além da direção da companhia aérea estatal Air Senegal. A proposta inclui incentivar acordos entre empresas brasileiras — todas privadas — e companhias africanas, por meio de parcerias de codeshare, sistema em que empresas compartilham voos e vendem passagens em conjunto.

Relação histórica e comércio em alta

A embaixadora destacou a relação histórica entre Brasil e Senegal, marcada por vínculos que remontam ao período do tráfico de pessoas escravizadas. Um dos principais símbolos desse passado é a Ilha de Gorée, localizada no Senegal.

As relações diplomáticas entre os países começaram na década de 1960. A embaixada brasileira em Dakar foi aberta em 1961, e dois anos depois o Senegal instalou sua representação em Brasília — a única na América do Sul.

No campo econômico, o comércio bilateral alcançou US$ 386,1 milhões em 2025, com superávit de US$ 370,8 milhões para o Brasil, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Isso indica que o Brasil exporta muito mais do que importa do Senegal.

“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar [lírios-d’água], como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, avaliou a embaixadora.

Investimentos e cooperação

Entre os investimentos recentes, está a criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, anunciada em outubro do ano passado. O projeto prevê a produção de 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras, com aporte inicial de US$ 20 milhões.

A iniciativa é liderada pela empresa brasileira West Aves, em parceria com investidores africanos. A expectativa é gerar cerca de 300 empregos diretos e mil indiretos, além de promover transferência de tecnologia.

“Caso bem sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, afirmou.

Também estão em discussão acordos nas áreas de agropecuária, merenda escolar e defesa.

Cooperação internacional e segurança

A relação entre Brasil e Senegal também avança no campo diplomático e multilateral. Segundo Daniella Xavier, o cenário global reforça a necessidade de maior coordenação entre países com interesses comuns.

Um dos pontos de convergência é a defesa de reformas em organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU, que atualmente conta com cinco membros permanentes com poder de veto — nenhum deles da América do Sul ou da África.

A embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, destacou que os dois países compartilham valores semelhantes.

“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, disse.

“Nossos dois países compartilham o mesmo compromisso com o multilateralismo, a diplomacia, a paz e a segurança, bem como a prevenção e a resolução pacífica de conflitos por meio do diálogo e da consulta”, completou.

Papel estratégico do Senegal

O Senegal assumirá, entre 2026 e 2030, a presidência da Comissão da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). O país também integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), grupo voltado à estabilidade na região.

Recentemente, o Brasil assumiu a liderança da Zopacas durante evento no Rio de Janeiro.

Durante o fórum em Dakar, o ministro senegalês Cheikh Niang ressaltou a importância da participação brasileira nos debates sobre segurança e paz na África.

“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”, afirmou.

“Portanto, desse ponto de vista, a participação não só é desejada, como também é, para nós, de grande utilidade para a qualidade do trabalho que realizamos”, concluiu.

Fonte: Agência Brasil

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