Fome global diminui pelo terceiro ano seguido, aponta novo relatório da ONU
Relatório da FAO e de agências da ONU aponta redução da fome e da insegurança alimentar em 2025, mas destaca desigualdades entre continentes e desafios para atingir a meta de erradicação até 2030

A fome no mundo apresentou nova redução em 2025, marcando o terceiro ano consecutivo de queda, segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI). De acordo com o levantamento, 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome no ano passado, número 14 milhões menor que o registrado em 2024 e 43 milhões abaixo do observado em 2022.
Produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em parceria com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA), a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Unicef, o estudo aponta que 7,8% da população mundial sofreu com a fome em 2025. O índice era de 8,1% em 2024 e de 8,6% em 2023.
Os dados foram apresentados nesta terça-feira (21), durante a 30ª Sessão do Comitê de Agricultura da FAO, realizada em Roma, na Itália.
Durante o evento, o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, reforçou que o cenário ainda exige ações mais rápidas por parte dos governos.
“Acabar com a fome e tornar dietas saudáveis acessíveis exige compromisso político, investimento sustentado e políticas que o facilitem.”
Representando o Brasil, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, afirmou que a fome pode ser combatida com políticas públicas eficazes.
“Quando os governos priorizam o combate à fome, à pobreza e à desigualdade, é possível alcançar avanços concretos.”
Insegurança alimentar também recua
Além da redução da fome, o relatório aponta melhora nos indicadores de insegurança alimentar moderada ou grave, condição caracterizada pela dificuldade de acesso regular a alimentos em quantidade ou qualidade adequadas.
Segundo o levantamento, cerca de 2,1 bilhões de pessoas — o equivalente a 25,8% da população mundial — viviam nessa situação em 2025. O percentual caiu em relação aos 27,1% registrados em 2024 e aos 28,7% de 2020, representando aproximadamente 86 milhões de pessoas a menos do que no ano anterior e 135 milhões a menos na comparação com 2020.
Apesar do avanço, o número ainda permanece acima dos níveis registrados antes da pandemia de covid-19.
África concentra maior número de pessoas com fome
O estudo destaca que a recuperação não ocorre de forma uniforme entre os continentes. Enquanto Ásia, América Latina e Caribe registraram melhora gradual nos últimos anos, a África continua concentrando o maior número absoluto de pessoas em situação de fome.
A estimativa é de que 20% da população africana tenha enfrentado fome em 2025, o equivalente a cerca de 309 milhões de pessoas. Em relação à insegurança alimentar moderada ou grave, o continente também lidera os índices, atingindo 56,6% da população.
Na comparação, a taxa foi de 22,9% na América Latina e Caribe, 20,3% na Ásia e apenas 8,7% na América do Norte e Europa.
Mulheres e população rural seguem mais vulneráveis
A publicação também mostra que moradores de áreas rurais continuam enfrentando maiores níveis de insegurança alimentar do que os residentes em centros urbanos.
As mulheres permanecem entre os grupos mais afetados, embora a diferença entre os gêneros tenha diminuído levemente em 2025.
Entre 2021 e 2025, apenas 62,7% das mulheres com idade entre 15 e 49 anos alcançaram a diversidade alimentar mínima considerada adequada. Isso significa que aproximadamente uma em cada três mulheres no mundo não teve acesso a uma alimentação suficientemente variada.
Os menores índices foram registrados na África (43%), seguida pela Ásia (65%) e América Latina e Caribe (77,5%). A América do Norte e a Europa apresentaram o melhor desempenho, com 79,8%.
Nutrição infantil ainda preocupa
O SOFI 2026 alerta que o ritmo de avanço na nutrição de mães e crianças continua insuficiente para o cumprimento das metas globais estabelecidas para 2030.
Atualmente, apenas 30,8% das crianças entre seis e 23 meses recebem alimentação minimamente diversificada.
Entre os principais indicadores de preocupação estão:
- 150 milhões de crianças menores de cinco anos ainda apresentam atraso no crescimento por desnutrição;
- os casos de anemia entre mulheres em idade fértil seguem aumentando em nível global;
- a obesidade entre adultos subiu de 12,1%, em 2012, para 16,2% em 2024, contrariando a meta internacional de interromper esse crescimento.
Como ponto positivo, o relatório destaca o aumento do aleitamento materno exclusivo em todas as regiões com dados disponíveis e a redução do retardo de crescimento infantil na África.
Alimentação saudável ainda pesa no bolso
Outro destaque do levantamento é o elevado custo da alimentação saudável, considerado um dos principais obstáculos para atingir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de erradicar a fome até 2030.
O número de pessoas incapazes de pagar por uma dieta saudável caiu de 2,97 bilhões, em 2021, para 2,69 bilhões em 2025. Ainda assim, esse contingente representa 32,7% da população mundial.
Na África, a situação permanece mais crítica: 66,6% da população não consegue arcar com uma alimentação saudável. O percentual é mais que o dobro do observado na Ásia, América Latina e Caribe.
Pela metodologia da Paridade do Poder de Compra (PPC), utilizada pela FAO, o custo médio diário de uma dieta saudável chegou a US$ 4,28 por pessoa em 2025, acima dos US$ 3,44 registrados em 2021 e dos US$ 2,94 em 2017. A América Latina e o Caribe apresentaram o maior custo médio: US$ 4,91 por pessoa ao dia.
O relatório defende investimentos em infraestrutura, pesquisa, irrigação, armazenamento refrigerado, além de reformas em subsídios, comércio e marcos regulatórios para reduzir os custos dos alimentos nutritivos.
“Isso inclui investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, irrigação e cadeias de frio, além de reformas em subsídios, facilitação do comércio e marcos regulatórios”, diz o texto do relatório.
Fernanda Machiaveli ressaltou que a redução do custo da alimentação saudável é fundamental para garantir o direito humano à alimentação.
“O custo dos alimentos saudáveis continua sendo um dos maiores obstáculos para a efetivação do direito humano à alimentação adequada. A contribuição mais importante desta edição do SOFI é ir além da descrição do problema. O relatório nos ajuda a compreender por que as dietas saudáveis continuam sendo caras”, pontuou a ministra.
Perspectivas ainda preocupam
O documento também traz projeções para os próximos cinco anos e alerta que fatores como conflitos internacionais, eventos climáticos extremos — incluindo possíveis efeitos do El Niño em 2026 e 2027 —, além da redução do financiamento internacional para ajuda humanitária, podem comprometer os avanços obtidos no combate à fome.
Ao encerrar a apresentação do relatório, Qu Dongyu reforçou a necessidade de fortalecer os sistemas agroalimentares em todo o mundo.
“Crises recentes – desde desastres naturais como a pandemia da doença do coronavírus (covid-19) até desastres causados pelo homem, como a guerra na Ucrânia, a crise de Gaza e a recente interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz – evidenciaram tanto a resiliência dos sistemas agroalimentares quanto a necessidade de fortalecê-los ainda mais para melhor servir às pessoas mais vulneráveis do mundo, agricultores e consumidores”, concluiu.



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