A democracia e as pessoas imperfeitas
Até onde vale flexibilizar convicções para fazer o seu lado vencer?

Por Silvana Oliveira
A política sempre foi feita por pessoas imperfeitas. O que esta eleição escancara é até onde essas imperfeições podem ser flexibilizadas, justificadas ou simplesmente ignoradas quando vencer se torna mais importante do que permanecer fiel ao que se defendia até ontem.
A última década mudou radicalmente a distância entre nós e quem disputa o poder. A aceleração da comunicação retirou filtros: uma declaração feita pela manhã encontra, poucas horas depois, um vídeo antigo que a contradiz; uma notícia atravessa WhatsApp, Instagram, TikTok e televisão antes que tenhamos tempo de compreender o que aconteceu; uma mentira pode adquirir aparência de verdade e uma verdade, recortada convenientemente, pode se transformar em mentira. Os políticos sempre foram humanos, contraditórios e sujeitos às conveniências do poder. A diferença é que agora assistimos a isso praticamente em tempo real.
E o que fazemos quando a contradição é do político em quem acreditamos?
O caso das bets é um bom exemplo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, editou, nesta reta final da campanha, uma medida provisória suspendendo as apostas on-line no país. Pessoalmente, concordo com a decisão. O Banco Central já havia mostrado, em 2024, a dimensão preocupante desse mercado, inclusive entre famílias beneficiárias do Bolsa Família. Minha questão não está no conteúdo da medida, mas no calendário: se o problema social era conhecido havia anos, por que uma decisão dessa dimensão acontece justamente agora? Não é preciso atribuir uma intenção que não podemos provar para reconhecer que, na política, o momento de uma decisão também comunica a intenção principal.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e candidato do Partido Liberal à Presidência, oferece outra fotografia dessa plasticidade eleitoral. Depois que uma notícia falsa passou a associá-lo à retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, proposta que nunca foi dele, mas do ex-deputado federal e pastor evangélico Victório Galli, vimos ganhar espaço um Flávio preocupado em reafirmar publicamente seu respeito aos católicos e às diferentes religiões. O contraste chama atenção diante de manifestações religiosas anteriores bem mais rígidas. É amadurecimento? Ampliação genuína de pensamento? Estratégia eleitoral? Não podemos saber. Podemos, porém, observar como a necessidade de conquistar votos alarga fronteiras que antes pareciam muito bem demarcadas.
Até onde uma convicção pode se adaptar sem deixar de ser convicção?
A política exige negociação, composição e concessão. Isso faz parte da democracia. O que esta campanha torna mais visível é a naturalidade com que cada lado perdoa no seu candidato aquilo que consideraria imperdoável no adversário. Não mudam apenas os discursos dos candidatos. Muda também a régua de quem os acompanha.
Na Bahia, guardadas as proporções, assistimos à mesma disputa pela construção das narrativas. Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e candidato do União Brasil ao governo estadual, constrói sua comunicação em torno da mudança. Jerônimo Rodrigues, governador e candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores, procura apresentar a continuidade de seu grupo político como condição para que a Bahia continue mudando. É uma ironia interessante da comunicação política: de maneiras diferentes, os dois precisam falar de mudança. Um argumenta que é preciso mudar quem governa; o outro, que é preciso manter quem governa para continuar mudando.
Isso importa porque eleição também é disputa pelo significado das palavras. Mudança, cuidado, democracia, liberdade, povo, fé, futuro: nenhuma delas chega sem sentido próprio a uma campanha eleitoral. Cada grupo tenta preenchê-las com o significado que melhor sustenta sua narrativa. E, em uma sociedade inundada por informação, a batalha política passa a acontecer não apenas sobre os fatos, mas sobre a interpretação que fazemos deles.
É nesse terreno que influenciadores e apresentadores assumiram um papel importante. Muitos adotam uma forma eficiente de persuasão: começam concordando com parte da crítica feita pelo interlocutor, estabelecem identificação e, pouco a pouco, conduzem o raciocínio para a conclusão política que desejam apresentar. Persuadir faz parte da comunicação. O problema começa quando a técnica substitui o argumento e, em vez de alguém dizer claramente “eu apoio esta candidatura por estas razões”, cria-se um percurso para que o público tenha a sensação de ter chegado sozinho a uma conclusão que estava desenhada desde o início.
Por trabalhar com comunicação, faço uma distinção que considero fundamental: comunicação autêntica não é comunicação sem estratégia; é estratégia sem fingimento.Posso querer convencer você e dizer claramente que quero convencê-lo. Posso defender um candidato, uma ideia ou uma política pública. Posso escolher um lado. O que merece nossa atenção é o momento em que deixamos de discutir ideias para administrar percepções, medos, identidades e afetos como se o eleitor fosse apenas um conjunto de gatilhos esperando para ser acionado.
Essa sensação de que vale quase tudo porque existe algo maior em jogo também ultrapassou as campanhas. O próprio Supremo Tribunal Federal, instituição à qual tantas vezes recorremos quando repetimos que “as instituições vão funcionar”, atravessa publicamente divergências e tensões entre seus ministros. Divergência jurídica é natural e necessária em uma corte constitucional. Quando essas diferenças assumem contornos de confronto institucional e pessoal, porém, a sociedade também precisa prestar atenção. A ministra Cármen Lúcia, que bom que ela existe, chegou a manifestar publicamente consternação e vergonha diante de episódios recentes no tribunal.
O que acontece quando cada campo passa a acreditar que não disputa apenas uma eleição, mas a própria sobrevivência da democracia, do país, dos direitos, dos valores, da família ou da liberdade? É aí que o vale-tudo começa a encontrar justificativa. Quando acreditamos possuir uma causa grande demais, corremos o risco de considerar pequenos demais os limites que nos impedem de defendê-la a qualquer custo.
Políticos são humanos, ministros são humanos, influenciadores são humanos, eleitores também são humanos. A democracia nunca dependeu da existência de pessoas perfeitas, mas depende justamente da construção de limites capazes de funcionar quando pessoas imperfeitas estão disputando o poder. Instituições, leis, imprensa, oposição, liberdade de expressão e disposição para ouvir quem pensa diferente existem precisamente porque ninguém deveria receber de nós confiança suficiente para fazer qualquer coisa em nome de uma causa.
Por isso, antes da pergunta sobre em quem votar, existe outra, que me parece muito mais desconfortável: quanto das nossas próprias convicções estamos dispostos a flexibilizar para que o nosso lado vença?
A democracia começa a correr perigo quando passamos a chamar as contradições dos nossos de estratégia e as dos outros de falta de caráter.



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