Tradição que atravessa gerações: conheça os saberes ancestrais que seguem vivos em Parafuso
Mestre Albertino e a baiana de acarajé Sandra Paula ajudam a preservar histórias, costumes e manifestações culturais que fortalecem a identidade da comunidade

Ancestralidade, cultura e sentimento de pertencimento fazem parte da história de Parafuso, comunidade de Camaçari que preserva tradições transmitidas entre diferentes gerações. A região é destaque na segunda reportagem da série “Camaçari 268 anos: Saberes dos Territórios”.
Entre as manifestações que ajudam a manter viva a memória local está o Samba de Caboclo de Parafuso. O grupo foi criado em 1990 pelo Mestre Albertino com o propósito de preservar e valorizar as tradições culturais da comunidade.
Com a característica indumentária rústica e natural do caboclo de palha, o grupo participa de festas populares, lavagens e outras celebrações realizadas no município.
“A tradição do Samba do Caboclo é muito ancestral, me lembro de quando minha mãe contava essas histórias, e a gente resolveu resgatar a tradição, porque eu pensei: ‘isso aqui tá dentro de Parafuso, isso aqui é de Parafuso, então tem que ter algo que mostre a nossa ancestralidade’. Então eu fui juntando todas as peças e se formou o Samba do Caboclo de Parafuso”, relata Albertino.
Para o mestre, levar o grupo a desfiles cívicos e lavagens também representa uma oportunidade de aproximar crianças e jovens das raízes culturais do território.
“Participar dos desfiles e das lavagens é sempre uma alegria, é o momento das pessoas conhecerem o nosso trabalho, através das nossas apresentações, onde a gente tem o contato com a nova geração, e essa nova geração precisa conhecer as raízes de Parafuso, e a cultura é uma boa porta de entrada para esse contato”, destaca.
Relação com Parafuso vai além da cultura
A preservação cultural e ambiental também está entre os fatores que fortalecem a ligação de Mestre Albertino com a comunidade onde vive.
“O que eu mais gosto em Parafuso é viver aqui, minha mãe diz que eu enterrei o umbigo aqui em Parafuso, porque eu posso viajar para qualquer lugar no mundo, mas sempre vou voltar para Parafuso. Aqui é uma comunidade que tem contato com o meio ambiente, que a gente ainda tem essa preservação cultural, então isso me faz presente, isso me faz viver mais, a gente tem os pés no chão, é uma comunidade muito ancestral”, explica.
O mesmo sentimento de pertencimento é compartilhado por Sandra Paula, moradora da região e baiana de acarajé.
“Eu não troco esse lugar por nenhum lugar do mundo, posso até passear, viajar, mas eu sou enraizada em Parafuso. Parafuso é um lugar maravilhoso e eu sou muito grata a Deus, por abençoar minhas mãos, porque tudo que eu faço, tudo que eu levo pro meu tabuleiro é com muito respeito, muita dedicação, muita fé, muito axé e nada é por acaso”.
Acarajé também preserva memória e ancestralidade
A trajetória de Sandra como baiana de acarajé começou depois que ela percebeu a ausência de comerciantes da própria comunidade durante o tradicional São Pedro de Parafuso. A partir disso, decidiu iniciar a venda do alimento ao lado de familiares.
“Foi quando eu tive a ideia de chamar minha sogra e minha cunhada pra vendermos acarajé, e foi quando tudo começou. Me tornei baiana de acarajé e agora em 2026 eu completo 15 anos como baiana de acarajé, e tenho muito orgulho e muito respeito pela profissão que eu estou hoje”, conta.
Para Sandra, o tabuleiro representa mais do que uma atividade econômica. Ele também carrega elementos da memória, da cultura de matriz africana e da resistência do povo negro.
“Quando eu monto meu tabuleiro, eu não levo só a comida. Eu levo a alegria de encontros e toda uma história, mas existe a questão do respeito. Respeito com o alimento, porque ele é de matriz africana, vindo dos nossos ancestrais e tem toda uma história, é a luta do povo, da resistência do povo negro e a gente precisa, além de trazer o sustento pra família, respeitar esse alimento”, ressalta.
As histórias de Mestre Albertino e Sandra Paula mostram como diferentes saberes continuam presentes no cotidiano de Parafuso. Do Samba de Caboclo ao acarajé, tradições culturais ajudam a preservar a memória coletiva e reforçam o sentimento de identidade e pertencimento entre os moradores da comunidade.



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