Projeto contra bullying em Camaçari registra queda de 90% nos casos em escola
Criada há oito anos, iniciativa desenvolvida por professora do Centro Educacional Municipal de Camaçari utiliza atividades educativas para promover respeito, empatia e conscientização sobre a violência dentro e fora da internet

Uma iniciativa educacional desenvolvida no Centro Educacional Municipal de Camaçari (CEMC) tem apresentado resultados no enfrentamento ao bullying e ao cyberbullying. Segundo a professora Edite Wilma Souza, responsável pelo projeto, a unidade escolar registrou uma redução de 90% nas ocorrências de bullying em 2026, resultado atribuído ao trabalho de conscientização realizado com os estudantes.
Batizado de “Bullying e Cyberbullying: Educar para o Respeito”, o projeto existe há oito anos e já beneficiou mais de 500 alunos dos turnos diurno e noturno, incluindo turmas do Ensino Fundamental II, do 6º ao 9º ano, e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A proposta busca estimular atitudes de respeito, empatia e responsabilidade nas relações presenciais e virtuais, mostrando que combater a violência também significa não incentivar agressões, não compartilhar conteúdos ofensivos e não se omitir diante dessas situações.
Experiências pessoais inspiraram criação do projeto
A professora Edite Wilma Souza conta que decidiu desenvolver a iniciativa a partir de experiências vividas durante sua trajetória como estudante. O objetivo foi transformar situações de sofrimento em aprendizado e prevenção dentro da comunidade escolar.
“O projeto foi pensado para ensinar de forma lúdica, teórica e prática que determinadas atitudes ferem o outro e não podem ser consideradas como brincadeiras. Que precisamos conviver com as diferenças de forma respeitosa e sem ataques, pois posturas assim podem causar traumas por toda a vida. Isso não só presencialmente, mas também no ambiente virtual, através das redes sociais”.
De acordo com a educadora, os resultados vão além da diminuição das ocorrências, alcançando familiares e integrantes da comunidade.
“A mensagem, os ensinamentos que o projeto traz, tem promovido efeitos muito positivos. Os casos de buylling têm diminuído significativamente. Podemos considerar, neste ano, uma queda de 90% dos registros. Também envolvemos a família e a comunidade, e percebemos que os alunos se tornam agentes multiplicadores dos conhecimentos. O projeto é uma ferramenta social, não apenas pedagógica”, pontuou a educadora.
O percentual apresentado é um levantamento informado pela professora, sem detalhamento dos números absolutos de ocorrências.
Atividades ensinam estudantes a reconhecer atitudes violentas
Um dos diferenciais do projeto é a participação dos próprios alunos na elaboração de materiais educativos. Objetos e elementos do cotidiano são transformados em ferramentas de reflexão sobre comportamentos, escolhas e consequências.
Entre as produções está a Árvore do Bem e do Mal, que apresenta, de um lado, valores como amizade, solidariedade, respeito e empatia. Do outro, aparecem atitudes prejudiciais, incluindo preconceito, discriminação, agressão, humilhação e ódio.
Outra atividade é o painel de Palavras Positivas e Negativas, utilizado para demonstrar como a comunicação pode contribuir para o acolhimento ou provocar sofrimento. A proposta incentiva expressões e comportamentos relacionados à inclusão, à ajuda e ao respeito.
O Semáforo do Respeito também integra as ações pedagógicas. Inspirado nas cores da sinalização de trânsito, o material orienta os estudantes a refletirem antes de falar, agir ou publicar conteúdos nas redes sociais.
O verde representa atitudes positivas, como diálogo e inclusão. O amarelo indica a necessidade de avaliar possíveis consequências, especialmente antes de compartilhar informações ou imagens. Já o vermelho identifica comportamentos que devem ser evitados, como ameaças, xingamentos, humilhações e exposição indevida de outras pessoas.
Cyberbullying e segurança digital também são abordados
Além das agressões presenciais, a iniciativa dedica atenção aos riscos da violência praticada pela internet.
Enquanto o bullying envolve comportamentos agressivos e repetitivos, como insultos, ameaças, exclusão e agressões físicas, o cyberbullying ocorre por meio de plataformas digitais, aplicativos de mensagens e redes sociais.
Entre as práticas estão a divulgação de boatos, o envio de mensagens ofensivas e a exposição de imagens sem autorização.
Para abordar essas situações, os estudantes produzem representações de celulares, computadores, televisores e relógios inteligentes, além de materiais relacionados às redes sociais.
As atividades reforçam a importância da privacidade, do compartilhamento responsável de informações e da recusa em participar de grupos destinados a constranger ou humilhar outras pessoas.
Os trabalhos ficam reunidos no Cantinho de Conscientização sobre Bullying e Cyberbullying, espaço que destaca o protagonismo dos estudantes na construção de uma convivência escolar mais respeitosa.
Alunos relatam mudanças no ambiente escolar
A estudante Clara Conceição, de 13 anos, matriculada no 7º ano, afirma que as atividades contribuíram para ampliar sua compreensão sobre o respeito às diferenças. Ela também compartilhou uma experiência de bullying vivida anteriormente.
“Eu sofri bullying em outra escola que estudei e foi muito ruim, porque me machucou, me senti muito triste e ninguém deveria passar por isso. Aqui, com o projeto, eu não vejo acontecer, aprendemos a respeitar os outros e é um conhecimento que levamos para a vida”, refletiu.
Para Taylor Menezes, também de 13 anos, estudante do 8º ano, o projeto ajuda os colegas a reconhecerem comportamentos inadequados e a adotarem novas posturas.
“O comportamento dos colegas na escola está mudando para melhor. Aprendemos a identificar ações e falas, isso graças ao que aprendemos com a professora. É tudo muito bom e legal”, frisou.
Escola adota protocolo para casos de bullying e cyberbullying
Como desdobramento das atividades, o CEMC desenvolveu o Protocolo de Intimidação Sistemática (Bullying) e Intimidação Virtual (Ciberbullying), que orienta a identificação e o encaminhamento de ocorrências na unidade.
O documento tem como referências a Lei Federal nº 13.185/2015, que instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática; o Marco Civil da Internet, estabelecido pela Lei nº 12.965/2014; e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), previsto na Lei nº 8.069/1990.
Também considera a Lei nº 14.811/2024, que incluiu os crimes de bullying e cyberbullying no Código Penal. A legislação prevê tratamento penal específico para essas práticas, sendo o cyberbullying classificado como crime mais grave, com pena de reclusão. A norma não classifica automaticamente ambos como crimes hediondos.
O protocolo ainda se relaciona às orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente quanto ao desenvolvimento de competências socioemocionais e à promoção da cultura de paz.
Segundo a coordenadora pedagógica Maria Célia Silva, a escola mantém procedimentos para apurar situações identificadas e envolver os responsáveis pelos estudantes.
“Identificamos a natureza, acionamos os familiares dos alunos envolvidos e tomamos as providências cabíveis. Por meio de todos os aparatos, os alunos compreendem que o bullying é crime”, pontuou.
Com a participação de alunos, professores e familiares, o projeto busca fortalecer uma cultura de prevenção à violência e incentivar relações mais saudáveis no ambiente escolar e nas plataformas digitais.



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