Novo circuito de murais transforma entorno do BRT do Itaigara em galeria a céu aberto em Salvador
Intervenções de seis artistas ocupam mais de 300 metros quadrados e levam temas como ancestralidade, cotidiano, resistência e pertencimento para uma das áreas de grande circulação da capital baiana

O entorno do BRT do Itaigara ganhou novas cores com a conclusão de um circuito de murais que transforma áreas de passagem em espaços dedicados à arte, à memória e à contemplação. A iniciativa reúne obras de Zana Nacola, Felipe Alaído, Isa Muriá, Thiago Tupinambá, Niiny e Thays Eunice.
Batizado de Circuito de Murais do BRT – Arte como Respiro: Territórios em Fluxo, o projeto é realizado pela Prefeitura de Salvador, por meio da Fundação Gregório de Mattos (FGM), e pela Trevo Produções. A curadoria e concepção são de Vanessa Vieira, do Projeto MURAL – Movimento Urbano de Arte Livre.
A proposta é ampliar a presença da arte pública em uma região marcada pelo intenso fluxo de veículos e pessoas. Em meio ao concreto e à rotina urbana, os trabalhos abordam ancestralidade, natureza, diversidade, relações humanas, memória, cotidiano e pertencimento.
Arte dialoga com história do Itaigara
O conceito curatorial “Arte como Respiro: Territórios em Fluxo” considera a cidade como resultado de encontros, deslocamentos e diferentes formas de existência. A proposta é utilizar a arte pública para provocar novos olhares sobre espaços presentes no cotidiano da população.
No Itaigara, as intervenções também dialogam com a memória associada ao nome do bairro, relacionado à expressão “canoa de pedra”, de raízes tupi-guarani. Dentro do conceito do projeto, a canoa simboliza movimento, travessia e conexão, enquanto a pedra representa permanência, firmeza e resistência.
A partir dessa perspectiva, os seis artistas desenvolveram trabalhos com diferentes técnicas e interpretações sobre Salvador.
“Rede Mãe” celebra conexão entre mulheres
A artista visual, ilustradora e muralista baiana Zana Nacola assina “Rede Mãe”, trabalho realizado em uma área de 70 metros quadrados. A pintura teve assistência do artista Eduardo Rodrigues.
Com referências às rendas e às tramas, a obra aborda as conexões entre mulheres e estabelece uma relação simbólica entre Brasil e África. O mar aparece como elemento de ligação entre os dois territórios e como referência às memórias e ancestralidades construídas ao longo da história.
A composição destaca ideias de apoio, cuidado, união e força coletiva, além de celebrar mulheres descendentes daquelas que sobreviveram à travessia atlântica e fizeram da resistência uma herança compartilhada.
Cotidiano do Itaigara vira mural
Com mais de 80 metros quadrados, “Cotidiano em Movimento”, de Felipe Alaído, retrata encontros, personagens e deslocamentos presentes diariamente no Itaigara.
Cenas como vendedores de frutas, bancas de salgados e encontros entre casais aparecem na composição, que transforma situações comuns da região em uma narrativa sobre convivência, diversidade e vida urbana.
Os artistas Esdras Mosh e Suck participaram como assistentes durante o processo de pintura.
Presença indígena ganha destaque
Isa Muriá e Thiago Tupinambá, em uma conexão artística entre Bahia e Pará, são responsáveis por “Mãos Indígenas”, mural com mais de 80 metros quadrados e assistência de Suck.
A obra busca evidenciar a participação dos povos indígenas na construção de Salvador e aborda processos históricos de escravização e exploração dessa população como mão de obra.
O trabalho também questiona representações que colocam os povos indígenas exclusivamente no passado e propõe “reflorestar a consciência” sobre a identidade indígena e sua presença no Brasil contemporâneo.
Rio Camarajipe inspira obra sobre resistência
O Rio Camarajipe é um dos elementos centrais de “Onde a Vida Resiste”, mural de 80 metros quadrados criado por Niiny Santos. A obra reúne figuras humanas, ancestrais, crianças, pescadores, animais, vegetação e palafitas.
O trabalho aborda a relação entre água, vida, território e resistência, além das transformações provocadas pela poluição, ocupação urbana e especulação imobiliária.
Entre os elementos presentes está um pescador usando uma máscara do BaianaSystem, referência que amplia o diálogo da obra com a cultura baiana e com as disputas e transformações do território.
Cinco figuras femininas representam ancestralidade e transmissão de conhecimentos entre gerações. Crianças, pescadores, fauna e vegetação completam a narrativa sobre a relação das comunidades com o rio e a necessidade de preservação dos ecossistemas.
A pintura contou com a assistência de Expedito Jorge, Carlos (Cala), Alisson Ramos e Oliver Dorea.
“Cuide-se” propõe reflexão sobre afeto e vida urbana
Thays Eunice assina a obra “Cuide-se”, que reúne referências ao afeto, cura, sonhos, identidade cultural, natureza e diferentes formas de viver em Salvador.
A intervenção utiliza elementos do cotidiano para propor uma reflexão sobre cuidado e sobre a relação das pessoas com a cidade. Cala e Acredite atuaram na assistência da pintura.
Com a entrega das obras, Salvador passa a contar com mais um percurso gratuito de arte urbana. O novo circuito busca aproximar a produção artística contemporânea de milhares de pessoas que circulam diariamente pelo Itaigara, além de valorizar diferentes narrativas sobre a história, a identidade e o cotidiano da capital baiana.



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