Memória preservada: vestido de Mãe Bernadete passa a integrar acervo do Museu Nacional

Indumentária usada pela ialorixá foi entregue pelo filho durante evento no Rio de Janeiro e simboliza a preservação da ancestralidade e da luta dos povos quilombolas

Bahia Brasil Notícias
Memória preservada: vestido de Mãe Bernadete passa a integrar acervo do Museu Nacional
Foto: Felipe Cohen/ Projeto Museu Nacional Vive

O legado de Mãe Bernadete, liderança quilombola assassinada em agosto de 2023, na Bahia, ganhou um novo espaço de preservação. Uma indumentária utilizada pela ialorixá passou a integrar o acervo do Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, como símbolo da ancestralidade, da resistência e da valorização da cultura afro-brasileira.

A peça, um vestido branco com detalhes em azul, foi doada pelo professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho da líder religiosa e comunitária. A entrega aconteceu durante a terceira edição do evento Diálogos da Reconstrução, que teve como tema “Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional”.

Mãe Bernadete liderava a Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, situada em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Sua trajetória foi marcada pela defesa dos direitos humanos, da preservação dos territórios tradicionais e dos direitos das comunidades quilombolas.

Segundo o Museu Nacional, a incorporação da vestimenta ao acervo faz parte de um esforço para ampliar a representatividade das populações tradicionais.

“[A iniciativa] integra a proposta de reconhecer e preservar as memórias, os saberes e as práticas das comunidades quilombolas como patrimônios vivos, ampliando as possibilidades de representação dessas histórias na instituição”, informou a instituição.

Filho de Mãe Bernadete destaca importância da homenagem

Jurandy Pacífico dos Santos explicou que a doação ocorreu após representantes do Museu Nacional procurarem a família para solicitar um objeto que tivesse pertencido à ialorixá.

Ao escolher a indumentária, ele ressaltou que o significado da peça ultrapassa seu valor material, representando a história de uma mulher que dedicou a vida à defesa de sua comunidade.

“A doação da indumentária, não é apenas a doação de um objeto. Aquilo não se trata de um objeto. Se trata além disso. Se trata de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território. Aquela indumentária para a gente de comunidade quilombola é a questão de manter a memória de Mãe Bernadete viva”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.

Para o gestor cultural, a presença da vestimenta no Museu Nacional representa também o reconhecimento da contribuição histórica das comunidades quilombolas para a formação da sociedade brasileira.

“Sempre foi não reconhecido pelo sistema. Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo”, concluiu.

Vestido simboliza ancestralidade e resistência quilombola

Em um texto encaminhado à Agência Brasil, Jurandy destacou que a chegada da indumentária ao Museu Nacional permite que a história de Pitanga de Palmares alcance públicos além dos limites da comunidade.

A iniciativa também abre espaço para que pesquisadores, estudantes e visitantes conheçam a trajetória de Mãe Bernadete e compreendam a importância das comunidades tradicionais na preservação dos conhecimentos ancestrais.

“Ao integrar o acervo do Museu Nacional, a indumentária passa a contribuir para que futuras gerações, pesquisadores e visitantes conheçam não apenas a trajetória de Mãe Bernadete, mas também a história de resistência dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais.”

O filho da ialorixá reforçou que a doação representa um gesto coletivo de preservação da identidade quilombola.

“Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua resistindo. A memória de Mãe Bernadete permanece viva, porque seu legado continua!”, completou.

Para os familiares, especialmente filhos, netos e demais descendentes, a homenagem representa a continuidade de uma história que não foi interrompida pelo assassinato da liderança.

“A indumentária deixa de ser apenas uma peça de vestuário e passa a ser um patrimônio de memória, carregado de identidade, espiritualidade, afeto e representatividade”, concluiu.

Relembre o assassinato de Mãe Bernadete na Bahia

Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023, dentro de sua residência, no Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho.

Na ocasião, criminosos invadiram o imóvel onde a ialorixá estava acompanhada dos netos e efetuaram 25 disparos, a maioria atingindo o rosto da vítima.

À época, o Ministério Público apontou que o crime teria sido motivado pela atuação da liderança contra o avanço do tráfico de drogas na comunidade.

Mãe Bernadete integrava um programa de proteção desde 2017, quando seu filho, conhecido como Binho do Quilombo, também foi assassinado.

A morte da ialorixá provocou repercussão nacional e ampliou o debate sobre a violência enfrentada por lideranças quilombolas e defensores dos direitos humanos no Brasil.

Museu Nacional promove diálogo com comunidades quilombolas

A doação aconteceu durante a terceira edição do Diálogos da Reconstrução, realizada pelo Museu Nacional, instituição vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O encontro contou com a participação do Projeto Museu Nacional Vive, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), da UFRJ e do Instituto Cultural Vale.

A programação reuniu representantes de comunidades quilombolas de diferentes regiões brasileiras para discutir a preservação da memória, a valorização das manifestações culturais e a transmissão de conhecimentos tradicionais.

De acordo com a instituição, o objetivo foi promover o diálogo com lideranças quilombolas “sobre a preservação da memória, a produção cultural e a transmissão de conhecimentos, contribuindo para a construção de um museu plural e democrático”.

“O encontro trata os saberes, as práticas e as narrativas quilombolas como patrimônios vivos. A proposta é refletir coletivamente sobre como musealizar essas memórias e como o Museu Nacional pode contribuir para valorizá-las e difundi-las”.

A atividade foi transmitida ao vivo pelo canal oficial do Museu Nacional no YouTube.

Representatividade e preservação dos saberes tradicionais

A diretora de Integração Museu e Sociedade, Thais Mayumi Pinheiro, ressaltou a importância de ouvir diretamente as comunidades tradicionais sobre a maneira como desejam ter suas histórias apresentadas ao público.

“Entender como os produtores e detentores de conhecimentos tradicionais querem se ver representados no Museu Nacional e, assim, reforçar o compromisso da instituição com a construção de um museu plural e democrático”, observou.

Já o gestor das novas exposições do Projeto Museu Nacional Vive, Caio Gonçalves Dias, destacou que práticas culturais transmitidas entre gerações também constituem importantes formas de conhecimento.

Segundo ele, atividades desenvolvidas por mestras ceramistas e tecelãs quilombolas carregam saberes que precisam ser reconhecidos e valorizados pelas instituições culturais.

“O papel do museu e o compromisso do PMNV é criar condições para que esses saberes sejam reconhecidos, respeitados e apresentados como as próprias comunidades entendem que devem ser”, definiu.

Com a incorporação da indumentária de Mãe Bernadete ao acervo, o Museu Nacional amplia o espaço dedicado à memória quilombola e contribui para preservar a trajetória de uma das lideranças que marcaram a luta pelos direitos das comunidades tradicionais na Bahia.

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