Flávio Bolsonaro apaga posts em que chamava Bolsa Família de “bolsa-farelo”
Publicações excluídas do perfil do senador no X criticavam programas sociais e o PT; candidato agora propõe ampliar para dois anos a regra de transição para beneficiários que aumentarem a renda ou conseguirem emprego

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apagou de sua conta no X, antigo Twitter, publicações em que criticava o Bolsa Família e classificava o benefício como “bolsa-farelo”. Os posts também incluíam críticas ao programa Renda Melhor, criado pelo governo do Rio de Janeiro em 2011 para complementar a renda de famílias que já recebiam o benefício federal.
As exclusões foram identificadas pelo Estadão, que fez o download das publicações do senador em junho deste ano. O arquivo reúne os textos, as datas, os horários e os links das postagens originais. Segundo o jornal, todas as publicações citadas em uma reportagem publicada há quatro meses foram apagadas do perfil de Flávio.
O Estadão procurou a campanha do senador para saber o motivo da exclusão dos posts, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.
Críticas ao Bolsa Família e ao Renda Melhor
Em novembro de 2011, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio criticou a aprovação do Renda Melhor, que previa um benefício adicional de até R$ 300 para famílias em situação de extrema pobreza. Na ocasião, afirmou ter sido o único voto contrário ao projeto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
“Fui o único voto contra na @alerj ao projeto ‘Renda Melhor’, q chamei de ‘bolsa-farelo’, pelo seu caráter clientelista eleitoral”, escreveu o então deputado em resposta a uma publicação do jornalista Ancelmo Gois, em 24 de novembro daquele ano. O post, cujo link ainda era conhecido, não está mais disponível.
Flávio fez cinco publicações sobre a proposta e, em todas elas, utilizou o termo “bolsa-farelo”. Em uma das mensagens, afirmou ter apresentado emendas para limitar a dois anos o período de recebimento do benefício.
“Fiz emendas ao projeto, q foram rejeitadas, p/ limitar em 2 anos o tempo p/ a pessoa receber o ‘bolsa-farelo’”, escreveu.
Em outra publicação, acrescentou que poderia até ser favorável ao programa caso houvesse um limite de tempo para o pagamento.
Posts apagados criticavam o PT
Entre as mensagens excluídas está uma publicação de junho de 2013 na qual Flávio afirmava que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”.
Em 2014, o senador também publicou uma mensagem com referência à Comissão Nacional da Verdade, que investigou violações de direitos humanos durante a ditadura militar.
“#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”, escreveu.
Outra publicação, também de 2014, questionava a metodologia utilizada para calcular a taxa de desemprego no Brasil. Na mensagem, Flávio argumentava que beneficiários do Bolsa Família e do auxílio-desemprego não procurariam trabalho e, por isso, seriam considerados empregados pelo governo do PT.
Em 2011, o então deputado também criticou um acordo entre governo e oposição para aprovar um reajuste do auxílio, classificando a medida como “financiamento público de campanha do PT”.
Regra de transição volta ao debate
O limite de dois anos defendido por Flávio em 2011 voltou à discussão pública após a coordenadora econômica de sua campanha, Daniella Marques, apresentar uma proposta de transição para beneficiários do Bolsa Família em um eventual governo do senador.
Em entrevista à CBN Bahia, Daniella afirmou que a ideia é permitir que famílias que aumentem a renda, abram negócios ou consigam empregos com carteira assinada continuem recebendo o benefício por até dois anos. Segundo ela, caso a tentativa de inserção no mercado de trabalho não dê certo, o retorno ao programa seria automático.
“As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família; aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada, e todo mundo merece sonhar com mais oportunidade, mais dignidade. É justamente nisso que a gente quer focar, esse é o coração do plano do Flávio”, declarou.
Após a entrevista, perfis do PT e de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaram a divulgar nas redes sociais que Flávio pretendia retirar o Bolsa Família de beneficiários depois de dois anos. Com a repercussão, Daniella publicou um vídeo para explicar a proposta, enquanto o senador acusou a esquerda de divulgar informações falsas.
“A sua família hoje se aumentar a renda ou aceitar um emprego de carteira assinada, com o Lula mantém o Bolsa Família só por um ano. Com o Flávio, vai manter por dois anos. Com o Lula o retorno é em até 36 meses. Com o Flávio, seu retorno [ao programa] é automático”, afirmou Daniella.



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