Sexo, dinheiro e muita conversa

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Sexo, dinheiro e muita conversa

O mês de março, que agora se encerra, é marcado pela campanha de conscientização sobre o câncer colorretal. No Brasil, é o terceiro tipo de câncer mais comum e tem uma das maiores taxas de mortalidade no mundo. Ter um período dedicado a esse alerta é essencial para falarmos sobre a doença, seus sintomas e formas de prevenção.

Escrever sobre esse assunto está sendo, inclusive, pesado para mim neste momento. Imagino que, ultimamente, você tenha percebido um aumento no número de casos de câncer colorretal. Eu também percebi. Mais do que isso, vivi de perto a dor e o tratamento de duas pessoas próximas, com desfechos diferentes.

Na última semana, vi em momentos e locais distintos algo sobre essa campanha de conscientização. Foi aí que lembrei da minha infância, quando falar a palavra “câncer” parecia um tabu. Quando alguém era diagnosticado, principalmente numa época em que as chances de cura eram menores, evitava-se dizer o nome da doença. “É a doença”, “doença do mal”, “C.A.” – eram algumas das expressões que lembro de ouvir quando era pequeno.

Algumas pessoas mais velhas ainda têm receio em falar o nome da doença. Quando era pequeno, a impressão que eu tinha era que as pessoas sentiam que falar câncer atraía a doença. Então, para evitar atrair e ser a próxima vítima, ninguém falava o nome, ninguém falava sobre o assunto. Só lamentavam e choravam quando alguém descobria. Geralmente em estágio bem avançado.

Talvez o fato de ouvirmos falar mais sobre o câncer hoje não signifique que ele esteja mais frequente, mas sim que estamos identificando casos em estágios mais iniciais, antes que a doença avance. Essa mudança se deve, em grande parte, às campanhas de conscientização, à disseminação de informações e ao incentivo ao diagnóstico precoce.

É curioso como certos temas ainda carregam um peso social que impede o diálogo aberto. Lembrei de uma frase atribuída a Freud – que, na verdade, não encontrei exatamente nesses termos, mas que transmite uma ideia semelhante:

“As pessoas consideram o dinheiro como sujo, assim como o sexo, e por isso não falam sobre nenhum dos dois.”

Freud apontava que tanto o dinheiro quanto a sexualidade estão ligados a repressões culturais e sociais. Para ele, esses temas carregam significados inconscientes e, por isso, geram desconforto quando são discutidos abertamente. Isso também se aplica ao câncer.

Mas, apesar do tabu, a sociedade avançou no debate sobre câncer e sexualidade. Hoje, temos mais informações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento da doença, assim como sobre saúde sexual e controle de natalidade. No entanto, quando se trata de dinheiro, o progresso é bem mais lento.

O desconforto em falar sobre finanças ainda é maior do que ao discutir questões sexuais. E isso traz consequências. Muitas pessoas não têm acesso a conhecimentos básicos que afetam diretamente suas vidas. Conversando com algumas amigas planejadoras financeiras, ouvi relatos de clientes que desconheciam informações fundamentais, como:

  • “O que é esse ‘ir’ aqui no meu contracheque?” (a cliente se referia ao Imposto de Renda)
  • “FGTS? Como assim?” – disse outra cliente, sem saber que sua empresa depositava o benefício. Ela tinha mais de R$ 200 mil na conta e nunca tinha sequer conferido.

Talvez você ache esses exemplos absurdos. Mas não são. A falta de diálogo sobre dinheiro gera desconhecimento e dificulta decisões financeiras importantes. Muitas pessoas seguem a lógica do “cada um por si”, sem perceber que conversar sobre o assunto pode trazer aprendizados valiosos.

Falar sobre dinheiro não significa expor para todos quanto você ganha ou gasta. Significa discutir temas essenciais para a vida: o que é cheque especial, como os juros nos afetam, quais decisões financeiras foram acertadas ou erradas, quais aprendizados tivemos.

Conversar nos permite evoluir, entender melhor o mundo financeiro e tomar decisões mais conscientes. Quando o pudor diminui, a informação se espalha e os riscos também tendem a cair.

Por isso, conversem, compartilhem, aprendam. Que o papo sobre dinheiro faça parte do nosso dia a dia!

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