Réus de trabalho escravo são majoritariamente absolvidos

Levantamento da UFMG revela que décadas após denúncias, vítimas ainda enfrentam dificuldade para Justiça reconhecer exploração laboral contemporânea

Brasil
Réus de trabalho escravo são majoritariamente absolvidos
Foto: Wellyngton Souza/ Sesp-MT

Entre 2000 e 2025, apenas 4% dos acusados de trabalho escravo contemporâneo no Brasil foram condenados por todos os crimes atribuídos a eles, segundo levantamento da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Dos 4.321 réus analisados, 1.578 foram absolvidos, equivalente a 37% do total, e 178 receberam condenação parcial.

O estudo também revelou que as ações penais na Justiça Federal levam, em média, mais de sete anos para chegar ao trânsito em julgado — 2.636 dias. Durante o período, 19.947 pessoas foram vítimas de exploração laboral, sendo a maioria homens (3.936) e 385 mulheres.

Segundo a UFMG, a dificuldade das vítimas em comprovar o crime está ligada à exigência legal de demonstrar que o empregador restringiu sua liberdade de locomoção. Para tornar os dados mais acessíveis, a clínica prepara um painel interativo com inteligência artificial, alimentado pelo Jusbrasil, que permitirá visualizar indicadores como duração de processos, decisões judiciais, regiões do país e desfechos das ações.

Desalinhamento entre poderes
O juiz federal Carlos Borlido Haddad, coordenador da clínica, critica o funcionamento da Justiça: “A legislação é magnífica. O problema é a aplicação. Nossa atuação fica limitada diante do sistema”, afirmou. Ele destaca que, atualmente, o tráfico de pessoas é tratado de forma mais ampla, não restrito à exploração sexual, e que os atendimentos da clínica se assemelham aos de instituições internacionais nos Estados Unidos e México.

Casos emblemáticos e desumanização
Entre os episódios acompanhados pela clínica, um caso de um trabalhador idoso submetido à exploração de sua própria família resultou em indenização de R$ 350 mil, mas evidencia o desalinhamento entre vítimas e Justiça. Outros casos, como trabalhadores do Pará e Maranhão, mostraram naturalização da violência e condições degradantes, mas os réus foram absolvidos sob justificativas ligadas à “rusticidade do trabalho rural” ou costumes locais.

O que configura trabalho escravo contemporâneo
A legislação brasileira define como trabalho análogo à escravidão qualquer atividade forçada, em condições degradantes, vigilância constante ou jornadas exaustivas. A servidão por dívida é outra forma reconhecida, quando o deslocamento do trabalhador é limitado sob a alegação de pagamento de débitos.

Como denunciar
Denúncias podem ser feitas de forma anônima pelo Sistema Ipê, do governo federal, ou pelo aplicativo Laudelina, da Themis e Fenatrad. A Comissão Pastoral da Terra mantém a campanha “De Olho Aberto para não Virar Escravo”, destacando setores de risco como agropecuária e cultivo de cana-de-açúcar.

O estudo, financiado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, reforça que o combate ao trabalho escravo no Brasil exige não apenas legislação, mas aplicação ágil e ferramentas de monitoramento que protejam as vítimas e acelerem a justiça.

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