Quando o Brasil chama o Nordeste de “regional”
Confira o artigo do produtor cultural Murilo Fróes

Existe uma palavra que, no Brasil, carrega mais preconceito do que parece: “regional”. Ela surge quase sempre quando a cultura em questão nasce fora do eixo Sudeste, como se tudo o que vem do Nordeste precisasse de um adjetivo redutor para ser legitimado. Forró vira música regional. Baião vira regional. Piseiro é regional. O São João é tratado como festa regional. Enquanto isso, o samba passa a ser chamado de música brasileira, não por ter nascido na Bahia, mas por sua associação direta com o Rio de Janeiro. O carnaval carioca se consolida como festa nacional.
Essa diferença de tratamento não é casual, muito menos inocente. Ela constrói, ao longo do tempo, a ideia de que o Nordeste ocupa um Brasil à parte.
Não se trata de um ataque a estados ou regiões específicas, mas de uma crítica a uma narrativa histórica, política e midiática que ajudou a definir o que é “Brasil” e o que é empurrado para a margem. O que nasce no Sudeste tende a ser incorporado automaticamente à identidade nacional. O que nasce no Nordeste, por outro lado, costuma ser enquadrado como expressão local, quase folclórica, como se tivesse menos valor simbólico, menos potência e menor capacidade de dialogar com o país inteiro.
Essa lógica ignora um dado fundamental: o Nordeste não é pequeno, nem homogêneo, nem periférico. São nove estados, dezenas de grandes cidades, economias robustas e uma produção cultural intensa, contínua e diversa. Em densidade cultural, o Nordeste é um dos principais motores do Brasil. Foi ali, inclusive, que o país começou a se reconhecer como nação, quando a resistência à invasão holandesa ajudou a criar uma ideia de povo, território e pertencimento. A história do Brasil não passa ao largo do Nordeste. Ela começa aqui.
Ainda assim, persiste o mito do Nordeste pobre, atrasado e dependente, tratado como condição totalizante. Um imaginário alimentado por décadas de cobertura seletiva, que escolheu filmar a pobreza como se fosse exclusividade de uma região. Como se não houvesse miséria no Sudeste, no Sul ou no Centro-Oeste. Como se o Brasil inteiro não fosse atravessado por desigualdades profundas.
Esse enquadramento ignora dados econômicos e fatos históricos. Estados nordestinos têm PIB superior ao de muitos estados frequentemente apresentados como “modelos de progresso”. O Nordeste sempre foi gerador de riqueza, mão de obra, pensamento e inovação. Brasília foi erguida por braços nordestinos. São Paulo cresceu impulsionada por migrações vindas do Nordeste. Grandes projetos econômicos, industriais e culturais do país carregam a marca de pessoas que saíram dali.
Na cultura, essa contradição se torna ainda mais evidente. A vanguarda do cinema brasileiro contemporâneo é, em grande medida, nordestina. Glauber Rocha e o Cinema Novo redefiniram linguagem, estética e pensamento crítico no audiovisual brasileiro e mundial. Hoje, filmes de Kleber Mendonça Filho e Karim Aïnouz circulam pelos maiores festivais do mundo. “Aquarius”, “Bacurau” e “Motel Destino” passaram por Cannes com elencos e equipes majoritariamente nordestinos. Agora, “O Agente Secreto” amplia esse reconhecimento ao entrar na corrida do Oscar, desmontando a ideia de que esse cinema seria apenas local ou periférico.
Essa presença não se limita às telas. Ela está nas trilhas sonoras, nos bastidores, nas premiações. Basta lembrar de “Rio”, animação indicada ao Oscar de Melhor Canção Original com “Real in Rio”, composta por Sérgio Mendes e Carlinhos Brown. Um artista nordestino levando ao mundo uma sonoridade profundamente brasileira e reafirmando que o que nasce fora do eixo não só dialoga com o mundo, como o encanta.
Mesmo diante desse reconhecimento internacional, parte da mídia ainda insiste em chamar essa produção de “regional”. Como se Cannes e o Oscar estivessem celebrando algo menor, periférico ou exótico. O mesmo olhar aparece na exigência, silenciosa e muitas vezes explícita, de que atores, atrizes e jornalistas neutralizem seus sotaques para alcançar projeção nacional. Como se falar como se fala no Nordeste fosse um ruído, e não uma expressão legítima do Brasil.
A ideia de “limpar o sotaque” carrega um pressuposto perigoso: o de que existe um português padrão aceitável, quase sempre alinhado ao eixo Sudeste, enquanto os demais modos de falar precisam ser suavizados ou escondidos. No audiovisual, isso se traduz em personagens descaracterizados e carreiras moldadas pela renúncia à própria identidade. No jornalismo, aparece na padronização de vozes e na falsa noção de neutralidade como se ausência de sotaque fosse sinônimo de credibilidade.
Esse processo não é técnico, é político. Ele define quem pode representar o país e de que forma. Ao exigir que o Nordeste se adapte para “passar no Brasil inteiro”, reafirma-se a ideia de que o Brasil tem um centro legítimo de fala e várias margens obrigadas a se ajustar.
Por isso, o problema nunca foi o sotaque. O problema sempre foi a dificuldade histórica de aceitar que o Brasil fala com muitas vozes e que todas elas são nacionais.
Na literatura, a pergunta é incontornável: o que seria da literatura brasileira sem o Nordeste? O que seria da nossa língua e do nosso imaginário sem Graciliano Ramos, Patativa do Assaré, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna, Itamar Vieira Junior? Não são autores regionais. São autores que ajudaram a definir o Brasil enquanto Brasil.
Na música, a provocação é ainda mais evidente: o que seria da música brasileira sem Luiz Gonzaga? Sem o baião, o xote, o forró, o samba? O que seria da música brasileira sem João Gilberto e a Bossa Nova? Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Djavan, Alcione, Elba Ramalho, Dominguinhos, Raul Seixas, Chico Science, Alceu Valença, Fagner, Reginaldo Rossi, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Ivete Sangalo e tantos outros, não são desvios regionais, são pilares da cultura nacional.
Chamar tudo isso de “regional” não é apenas um erro conceitual, mas um gesto político. É uma forma de diminuir, enquadrar e controlar a narrativa sobre quem pode e quem não pode representar o Brasil.
A identidade nacional não nasce pronta, ela é construída. E, historicamente, essa construção privilegiou determinados centros de poder, mídia e capital.
Já passou da hora de rever esse vocabulário. De entender que cantar, dançar, vestir e consumir o que nasce no Nordeste não é apropriação cultural mas sim absorção cultural. É consumir Brasil.
O problema nunca foi o Nordeste ser “regional”.
O problema é o Brasil ainda não ter aprendido a se enxergar inteiro.



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