População em situação de rua ultrapassa 365 mil pessoas

Levantamento da UFMG aponta crescimento contínuo desde 2022 e revela concentração no Sudeste, especialmente em São Paulo

Brasil
População em situação de rua ultrapassa 365 mil pessoas
Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil/Arquivo

O número de pessoas vivendo em situação de rua no Brasil segue em trajetória de alta e já ultrapassa a marca de 365 mil indivíduos, segundo dados divulgados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/Polos-UFMG).

Em dezembro de 2024, o país contabilizava 327.925 pessoas nessa condição. Ao final do último levantamento, o total saltou para 365.822, evidenciando um crescimento expressivo da vulnerabilidade social em nível nacional.

O estudo utiliza informações do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), base de dados do governo federal que reúne beneficiários de políticas públicas e serve como referência para a distribuição de recursos aos municípios.

Queda durante a pandemia e retomada do crescimento

Entre 2020 e 2021, período inicial da pandemia de covid-19, houve uma redução no número de pessoas em situação de rua, que caiu de 194.824 para 158.191. No entanto, a partir de 2022, o cenário se inverteu, com crescimento contínuo nos anos seguintes.

Sudeste concentra maioria da população de rua

A Região Sudeste concentra a maior parte dessa população, com 222.311 pessoas, o que representa cerca de 61% do total nacional. Em seguida aparece o Nordeste, com 54.801 pessoas vivendo nas ruas.

O estado de São Paulo lidera o ranking nacional, com 150.958 pessoas em situação de rua, seguido por Rio de Janeiro (33.656) e Minas Gerais (33.139). Na outra ponta, o Amapá registra o menor número, com 292 pessoas.

Fatores que explicam o avanço

De acordo com os pesquisadores do Observatório, quatro fatores principais ajudam a explicar o crescimento:

  • fortalecimento do CadÚnico como principal instrumento de registro dessa população;
  • ausência ou insuficiência de políticas estruturantes de moradia, trabalho e educação;
  • precarização das condições de vida após a pandemia;
  • emergências climáticas e deslocamentos forçados na América Latina.

Especialistas apontam falhas estruturais

Para Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, a redução da insegurança alimentar grave não foi suficiente para conter o avanço da pobreza extrema.

Segundo ele, muitas pessoas enfrentam o dilema entre pagar aluguel, comprar alimentos ou adquirir medicamentos. “Mesmo com um ou dois salários mínimos, é impossível arcar com todas essas despesas”, avalia.

Outro ponto destacado é o impacto do avanço tecnológico no mercado de trabalho, que dificulta a reinserção profissional de pessoas sem acesso à qualificação.

Capacitação, moradia e emprego como solução

Mendonça defende que o enfrentamento do problema passa por capacitação profissional, combate ao preconceito e políticas públicas de moradia e emprego. Para ele, a população em situação de rua deve ser vista como cidadãos desempregados que precisam de oportunidades reais.

“O problema não está na população de rua, mas na forma como o poder público encara essa realidade”, afirma.

Ações do governo estadual

A Secretaria de Desenvolvimento Social de São Paulo informou que já repassou R$ 633 milhões aos municípios desde o início da atual gestão, sendo R$ 145,6 milhões destinados exclusivamente a ações para a população em situação de rua.

Entre as iniciativas citadas estão a ampliação do programa Bom Prato, com 24 novas unidades, e o fortalecimento do Serviço de Acolhimento Terapêutico Residencial, voltado à reinserção social, com foco em moradia, renda e autonomia.

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