Mudança do Garcia arrasta multidão e reafirma tradição de crítica e resistência no Carnaval de Salvador

Manifestação centenária no bairro do Garcia mistura irreverência, protesto e pertencimento e segue como símbolo da folia popular

Carnaval
Mudança do Garcia arrasta multidão e reafirma tradição de crítica e resistência no Carnaval de Salvador
Fotos: Inara Midias

A tradicional Mudança do Garcia voltou a transformar as ruas do bairro do Garcia em um grande palco de cultura, crítica social e celebração nesta segunda-feira (16) de Carnaval, em Salvador. Considerada uma das manifestações mais antigas da folia baiana, o cortejo reuniu moradores, foliões e visitantes em um ambiente marcado pela irreverência e pelo sentimento de pertencimento.

Entre fanfarras, fantasias e cartazes criativos, o evento manteve sua essência de liberdade e expressão popular. Morador do bairro há mais de seis décadas, Jaguaraci de Jesus destacou a importância da tradição.

“Eu sou morador do Garcia e o bloco me remete à minha infância. Sempre curti e ela é isso. Observe que não tem policial aqu,i mas não tem confusão porque são vizinhos e amigos juntos. E eu só deixo de ver a Mudança do Garcia quando eu morrer”, disse orgulhoso.

Neste ano, o cortejo contou com dois mini trios elétricos, garantindo suporte sonoro e logístico sem alterar o formato histórico. O vice-governador Geraldo Júnior acompanhou a saída do bloco e ressaltou a relevância da iniciativa.

“A Mudança do Garcia é um exemplo de resistência e de luta. Aqui é a força do nosso povo. E o Governo do Estado investe em projetos para manter essa tradição viva”, disse.

Criada na década de 1920, a manifestação surgiu da iniciativa de moradores que decidiram ocupar as ruas para brincar e protestar. Ao longo das gerações, a tradição foi mantida por participantes como Silvaninha Silva, que acompanha o cortejo desde a infância.

“Eu vinha menina com minha avó. Para mim é o ‘creme’ do Carnaval da Bahia. Todo mundo junto. Eu ador.! E politicamente a gente pode abrir a boca na maior tranquilidade que não tem repressão”, avaliou.

Sem cordas ou áreas exclusivas, o bloco mantém o formato aberto, com o trio avançando lentamente enquanto o público ocupa as ruas com liberdade. Marchinhas, bonecos, máscaras e cartazes com sátiras políticas seguem como marcas registradas da festa, que a cada ano apresenta novos temas e manifestações espontâneas.

Visitante de fora da cidade, a antropóloga Luci Lombrato destacou o caráter simbólico do evento.

“Eu sempre ouvi falar da Mudança do Garcia, não sou daqui e quis vir conhecer de perto. O bloco tem forte ação política, manifestações, protestos. É muito significativo e de luta. Gostei e gostei muito” falou.

A Mudança do Garcia permanece como um dos principais símbolos do Carnaval de rua da Bahia, reunindo tradição, crítica e participação popular em um desfile que atravessa gerações.

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