Falando de Dinheiro: Uma nova página em branco

Tenho uma sensação gostosa toda vez que abro um arquivo para começar a escrever. Ou quando deixo meu lado menos moderno falar mais alto e pego uma folha em branco para rabiscar o que está dentro da cabeça. É um prazer por saber que aquela página, em poucos minutos, estará preenchida com ideias que estavam rodando por aqui. E também uma curiosidade: nem sempre o avanço das letras segue aquilo que eu imaginava no início. Muitas vezes o rumo é completamente diferente.
É aquela coceirinha alegre pelo novo, pelo que vai ganhar forma, pelo que vai se tornar real em instantes. Toda vez que me vejo diante de uma página em branco, é assim que me sinto: na expectativa do que será escrito ali.
A página em branco é a oportunidade de começar algo. De fazer do jeito que queremos. E percebi que muita gente encarou as últimas semanas como uma variação dessa página em branco.
O tanto de “Feliz Ano Novo” que vi na quarta-feira de cinzas refletia bem essa sensação de que “o ano começou agora”.
É curioso como pessoas completamente diferentes repetem comportamentos parecidos. Desde a quarta de cinzas fui procurado por diversas pessoas para “agora começar a organizar as coisas”. Entre o Réveillon e o Carnaval, vivemos quase um banho-maria. As coisas acontecem, mas num ritmo suspenso. Passado o Carnaval, aí sim a página em branco se apresenta para ser preenchida.
Foi uma enxurrada de “Feliz Ano Novo” que eu já não sabia mais em que mês estava.
Confesso: já fui do time que criticava. “Ano novo agora? Tem dois meses que começou.” Quando implico com algo, implico de verdade.
Mas a gente muda. E não há vergonha em mudar de opinião. Não virei completamente de time, nada de Feliz Ano Novo no fim de fevereiro. Ainda não. Mas hoje entendo melhor o momento.
Nós, seres humanos, muitas vezes precisamos de marcos. O Carnaval vira uma data simbólica. O começo do mês parece mais organizado. O fim das férias dá a sensação de retorno à realidade. A segunda-feira vira um ritual.
É sempre na segunda que começamos a dieta.
E, como a vida adora ironias, foi uma nutricionista quem me perguntou na semana passada se deveria esperar a segunda-feira para começar o plano que tínhamos acabado de montar.
Tivemos uma reunião, estruturamos mudanças na agenda, ajustes na organização para permitir uma visão melhor do faturamento. Na quinta-feira, ela mandou mensagem:
— Você acha mais inteligente apertar o play amanhã ou aguardar segunda?
Ela só queria o marco. A segunda-feira. O dia simbólico em que “as coisas começam”. Talvez reflexo de tantos pacientes que também esperam a segunda para começar a dieta.
Mas começamos na sexta mesmo.
Os marcos ajudam. Eles organizam. Eles dão sensação de renovação. Mas a construção não depende do calendário. Depende da ação.
O problema nunca foi o Carnaval. Nem a segunda-feira. Nem o começo do mês. O problema é transformar o marco em desculpa.
Os marcos podem trabalhar a nosso favor. Só não podem servir para adiar o que precisa ser feito. No Carnaval, na Páscoa, no São João, numa terça-feira qualquer. Tanto faz. Apenas comece. Melhor resolver o que precisa ser resolvido, diminuir o impacto dos juros, planejar a aposentadoria, ter as finanças bem organizadas, do que lamentar lá na frente que não fez nada disso.
A página em branco é animadora. Mas ela não resolve nada se a gente continuar adiando a primeira linha.


Comentários: