Falando de Dinheiro: Estepe

Os sinais luminosos refletiam a força dos faróis brancos que passavam em velocidade. O brilho vermelho em formato triangular surgia do chão para indicar que ali algo estava errado. No acostamento, enquanto o barulho dos motores fazia um zunido veloz na noite silenciosa, subia do mato o cheiro de terra molhada. É o que nos acostumamos a chamar de cheiro de chuva.
Sem chuva e meio alheio ao que acontecia ao redor, um rapaz de camisa azul tentava não se expor ao risco da estrada enquanto se concentrava no que era mais importante para ele naquele momento. O triângulo imperfeito mostrava que o carro estava parado, mas tinha também a função de servir como uma barreira. Era o seguro enquanto trocava o pneu traseiro esquerdo do carro.
Passamos rápido por ele, mas não o suficiente para que não fosse visto. A cabeça estava no que faríamos no feriado, a barriga esperava alguma comida urgente. Mas aquele rapaz na beira da estrada chamou a atenção.
Ele já havia tirado o pneu furado e se preparava para colocar o reserva, o estepe. De uns anos para cá, o estepe virou um pneu de emergência. Mais fino, mais leve, com quilometragem reduzida. Um pneu que deve ser utilizado apenas para uma emergência.
Fora o debate da gana capitalista da indústria automobilística, refleti bastante sobre aquele rapaz nos minutos seguintes da viagem. Não vi o processo todo, mas imagino que ele seguiu ali com o triângulo como proteção, encaixou o pneu mais fino e pôde seguir viagem.
Precisou reduzir a velocidade e até aumentar a atenção enquanto rumava para o destino final. Mas conseguiu sair. Isso graças ao estepe que estava ali guardadinho debaixo da mala do carro. Foi o estepe que permitiu a ele seguir viagem sem precisar ficar parado no acostamento esperando pelo socorro.
Esse estepe não está ali para resolver. Está ali para dar tempo.
Sem o estepe, o rapaz de camisa azul teria algumas opções, nenhuma com tranquilidade para chegar onde queria. Talvez ligar pro seguro e esperar o socorro. Talvez buscar um borracheiro por perto na escuridão da noite. Talvez deixar os vidros um pouco abertos e tentar dormir enquanto a noite passa. Mas ele tinha um estepe.
Possivelmente ele andou mais alguns quilômetros, pode ter chegado ao destino e deixou para resolver o pneu furado no dia seguinte, com calma, descansado e bem alimentado. Pode ser também que tenha parado no primeiro borracheiro que viu. Pode ser, pode ser.
Com o estepe ele ganhou algo importante: opção. Pôde decidir o que fazer com calma e sem agonia. Vislumbrou diversos cenários. O estepe não resolveu o problema, não é para isso que ele serve, não é para isso que está ali. Mas, ainda assim, evitou que a viagem terminasse ali.
Essa é a função do estepe. Agora substitua o estepe pela reserva de emergência. Essa é a função dela.



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