Falando de Dinheiro: Educação financeira não começa na planilha
Episódio envolvendo preço de um chapéu e uma camisa do Esporte Clube Bahia ilustra como referências moldam decisões de consumo

Enquanto estávamos na estrada, surgiu a missão de comprar alguns litros de água de coco. Afinal, seria bom ter algo para hidratar durante o carnaval, não é?
Foi quando avistei uma quitanda com produtos artesanais e um letreiro grande na frente. As letras verdes no fundo branco chamaram logo a atenção de Pedro.
- Ali tem, pai. Para.
Desci do carro para providenciar as garrafas e abastecer a mala. Enquanto pagava, vi que meu pai puxava conversa com a vendedora sobre o quilo da codorna. Gostou do preço, achou um bom valor e foi ao caixa.
Eu guardei as garrafas no porta-malas e sentei no banco do motorista à espera dele. Não demorou muito, e ele voltou com dois pacotes de codorna já temperadas.
Assim que entrou no carro, Pedro reclamou:
- Cadê o chapéu do Bahia? Comprou?
Eu não tinha entendido nada, mas logo percebi que aquilo devia ter sido comentado enquanto eu estava pegando a água de coco. Logo na entrada da quitanda havia um balcão com alguns chapéus de couro, todos com o escudo do Bahia bordado. Bonitos, inclusive.
Associei a pergunta de Pedro a algum comentário que meu pai tinha feito antes de sair do carro. Pensando agora, acho até que ele tinha mais interesse no chapéu do que na codorna.
- Não. É R$ 180 — respondeu meu pai.
- Cen-to e oi-ten-ta? – Pedro perguntou, pausado e assustado.
- Isso mesmo.
- Cento e oitenta é quase o valor que um sócio do Bahia paga para comprar uma camisa do Bahia. Muito caro.
Quando ele falou isso, todo mundo riu.
Eu já estava tentando colocar o carro de volta na estrada, atento aos veículos que vinham em alta velocidade enquanto saía da marginal, mas fiquei pensando no raciocínio rápido dele.
Achei interessante a associação imediata: um chapéu custava praticamente o mesmo que uma camisa oficial do clube.
E, a partir disso, veio o juízo de valor. Não era só “é caro”. Era “é caro em comparação com algo que eu conheço”. E isso faz toda a diferença.
Educação financeira não começa na planilha. Começa na referência.
Seja a referência de quanto trabalhamos para ganhar determinado valor. Seja a referência de um produto em comparação com outro. No segundo caso, ainda mais relevante – porque a compra de um pode inviabilizar a compra do outro.
Comparar é aprender a escolher.
Mas nem todo mundo consegue criar essas conexões no momento da compra. Quando a referência não existe, o gasto tende a ser mais impulsivo. Quando existe, a decisão costuma ser mais consciente.
E talvez seja aí que esteja o ponto mais interessante de tudo.
Às vezes aprendemos a comparar valores antes mesmo de aprender a ganhar dinheiro.


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