A igreja do Rosário não pede licença ao Largo do Pelourinho, ela o reescreve
Erguida por mãos negras desde o século XVIII, a igreja reúne memória, arte e devoção e segue como um dos principais símbolos culturais de Salvador

Por Lysie Reis
Eu achava que tinha visto tudo. Em 2024, depois de levar um grupo de amigos para participar da missa afro na Rosário, eu tive a ideia de entregar, para a biblioteca local, um exemplar do livro “A Liberdade que Veio do Ofício”. Era só isso, mais nada. Me levaram até um jovem de olhar atento e forte, William Justo, o Prior da irmandade. Dessa conversa despertamos para outras possibilidades, e eu me aproximei da irmandade, onde sigo desenvolvendo algumas atividades como docente, como a roda de conversa e um curso de educação patrimonial. Desde então, mergulhei e revisitei a bibliografia sobre o tema, mas não só, deixei-me levar por suas histórias, e tenho algumas coisas aqui para contar.
Sempre gostei da sua cor, o azul do manto de Maria, que liga-a do Congo a Luanda, do Atlântico à Bahia: a mesma reza aprendeu muitas línguas, e atravessou, com correntes e no porão, o mesmo mar. Mamã Muxima, Mãe do Coração, veio em contas e em canto.
Começou a ser erguida em forma de capelinha em 1702 pelas mãos negras, cativas e forras e, ao longo de quase um século de esforço coletivo, só alcançou a forma que hoje se impõe no Largo do Pelourinho em 1780 . Ficou longe da praça nobre do Terreiro de Jesus, foi para o limite: junto a um antigo portão da cidade, ao lado de um quartel, acima do vale do Rio das Tripas, onde se excretavam dejetos domésticos, lixo urbano e, de forma marcante, miúdos e resíduos do gado vindos do matadouro do São Bento. Lugar de vigilância e insalubridade.
Mesmo com a doação do terreno pelo rei em alvará (1696), a primeira e singela capelinha da irmandade foi disputada: a freguesia do Passo a quis por matriz. Os irmãos apelaram ao trono. Em 1718, a Coroa sentenciou e o Conde de Sabugosa aplicou: voltaram ao seu lugar. Não foi dádiva, foi direito reconhecido por um rei que também precisava da sua presença. Como aponta a historiadora Lucilene Reginaldo, havia ali um jogo de mão dupla: o poder tolerava as irmandades porque serviam à evangelização e à ordem da cidade. Já os homens da Rosário teciam honra, ofício e sepultura digna para os seus, construindo sociabilidades próprias. Entre concessão e resistência, transformaram tutela em território,devoção em cidadania, e o gesto régio, que pretendeu controlar, acabou por confirmar uma centralidade negra que a cidade já não podia negar.
Reinventar-se sempre, essa foi a condição para sobreviver às agruras da escravidão. Ali, irmãos de ofício ergueram sua igreja, muitas vezes depois do trabalho forçado, à noite, carregando no ombro as pedras que retiravam das pedreiras do Taboão.
Mas ainda quero falar do azul, pois é o que me emociona sempre que a avisto de longe. Não se trata de um exclusivismo cromático das irmandades negras, pois o azul tem longa tradição mariana, mas vestindo essa igreja ele ganha conotação própria. Na Rosário, o azul fala duas línguas ao mesmo tempo: invoca a Virgem do Rosário e, no imaginário afro-brasileiro, evoca Iemanjá e Oxum. É cor-devocional e cor-memória, um plano intenso que, somado às torres em bulbo revestidas de azulejo e ao oratório de fachada, cria uma assinatura visual inconfundível no casario da ladeira. É a cor dos olhos da escravizada Anastácia, com sua imagem que nos leva ao pró-fundo da igreja, onde a periferia é o centro, nesse eu-nosso que lembra dor, mas insiste em liberdade, tal como o caminho d’água que segue seu curso e encontra outras águas.
A fachada adere aos padrões da época, um corpo central ladeado por duas torres, mas nesse suposto consenso, surgem diferenças que podem nos contar algumas coisas vistas à contrapelo, como me provoca Walter Benjamin.
As cúpulas bulbosas, azulejadas, conferem às torres um perfil raro em Salvador, desenhando um recorte singular com o céu. O oratório aberto no próprio plano da fachada, voltado para a rua, sugere a intenção de contato: a devoção não se fecha, apresenta-se ao passante, distribui bênçãos, cria conversas, incita e convida a dar uma olhadinha… e há a solução pouco usual dos corredores laterais que, em vez de conduzirem à sacristia, desembocam no pátio, um desvio do padrão que denuncia decisão dos desenhadores da planta, adaptação às necessidades e à vida concreta da irmandade. São gestos arquitetônicos.
Por dentro a Rosário guarda tempos sobrepostos em materialidades distintas, próprias de quem juntou dinheiro para ornar. Os púlpitos ainda trazem o gosto setecentista do rococó de então, mas os altares foram refeitos no século XIX em linguagem neoclássica. Os azulejos portugueses tentam alfabetizar a narrativa dos episódios ligados ao Rosário de Lisboa, conectando Salvador a uma rede atlântica de devoções. Já o forro pintado por José Joaquim da Rocha e seus discípulos, especialmente o artífice negro Teófilo de Jesus, organiza a iconografia, mas não só, era um mestre-escola, onde seus aprendizes negros, libertos ou não, aprendiam o ofício. Cada camada desta obra lenta responde a uma etapa em que a irmandade juntou recursos, agremiou oficiais, atualizou gostos e reafirmou seu lugar. O interior é um arquivo vivo, onde as técnicas de entalhadores, carpinteiros, douradores e pintores, homens de cor, se tornam escrita duradoura de liberdade pelo trabalho.
No seu chão, estão enterrados Manoel Querino, artífice e intelectual negro, Felisberto Américo de Souza, o Benzinho, filho da ialorixá Maria Júlia Andrade e herdeiro da tradição do Candomblé keto na Bahia. Seu avô, Bamboxê Obitikô, também tem seu túmulo na capela principal. Seus corpos são acolhidos pelo solo sagrado, onde seus ofícios e suas crenças se cruzam. A presença deles sob o piso da nave inverte a lógica que outrora negava aos negros a dignidade da sepultura sagrada, quando tantos corpos foram lançados a valas ou dissecados na Faculdade de Medicina.
Comparada a outras igrejas de irmandades do período, a novidade da Rosário não está apenas em quem a fez, mas em como a fez ver e como se fez ver nela. Sim, aceitou o terreno limítrofe que lhe foi concedido, mas, ao erguer-se, converte-se em marco urbano pontuando em azul a praça simbólica da comunidade negra. Basta um olhar para saber que se chegou ao Rosário dos Pretos. Em conjunto, esses elementos fazem mais do que distinguir um edifício: eles compõem uma paisagem de liberdade aos que libertos estão para o olhar além das aparências, com o olhar enquanto janela da alma.
Essa força visual não é gratuita. É a resposta da sua história. Se o lugar lhes foi concedido sob tutela e vigilância, a irmandade respondeu com sua edificação, rito e imagem presente! A cor que veste a igreja, as formas que a coroam, a abertura que a faz falar à rua e as camadas do interior compõem um manifesto silencioso: há fé, há trabalho, há memórias sociais. A Rosário não pede licença ao Largo do Pelourinho. A cada festa, a cada procissão, a cada reza com sua música e atabaques, com sua africana-idade, a igreja renegocia, diante dos podres poderes, o seu posto no mapa afetivo da cidade.
Desfiar seus contos em contas de um rosário é encontrar as camadas do tempo. Ao visitá-la sugiro algo além da contemplação, que por si é muito interessante. Mas quem quiser compreendê-la, experimente-a como um texto escrito em pedra, madeira, pigmento e azulejo, atravessado por vozes que ainda hoje falam de justiça. Pois esse templo azul não é “paz sem voz”. Quando estou nas missas de Padre Lázaro entendo que neste templo habita a memória de um Cristo que morreu na frente de sua mãe, Maria, não por submissão, mas por desafiar as injustiças.
Maria, a única mulher deste planeta que foi chamada de mãe por Jesus, ante os desafios, o educou; portanto, em sua voz, ela está presente contra toda escravidão, a do corpo e a do pensamento. Como a própria irmandade que a construiu, este Rosário é útero, é mãe e revolucionário.



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